A crescente disponibilidade de inteligência artificial democratizou técnicas antes restritas a quadrilhas organizadas. Ferramentas que custam em torno de US$ 30 (R$ 153) por mês permitem a criação de imagens e áudios falsos com qualidade profissional, eliminando a necessidade de laboratórios caros ou conhecimento avançado.
A mudança de perfil dos fraudadores
Segundo o professor Rodolfo Avelino do Insper, a barreira de entrada para golpes sofisticados caiu cerca de 100 vezes. Antes, um ataque exigia equipamentos especializados e equipes técnicas; hoje, um único indivíduo pode gerar deepfakes ou inserir vídeos manipulados usando serviços de assinatura simples. O CEO da Unico para a América Latina, Luis Felipe Monteiro reforça que “o criminoso é alguém que está 24 horas por dia, os 7 dias da semana, tentando encontrar uma brecha no sistema”.
Os números confirmam a evolução: entre junho de 2025 e abril de 2026, os casos de inserção de imagens e vídeos adulterados aumentaram nove vezes. Globalmente, deepfakes e manipulações físicas representavam 23,3% das fraudes, mas na América Latina esse percentual chega a quase 50%.
Sinais que ainda podem alertar
Os indícios visuais tradicionais – dedos deformados, falta de piscar ou rostos artificiais – tornaram-se raros, pois os modelos de IA foram aperfeiçoados para eliminar essas falhas. Ainda assim, alguns vestígios permanecem. A velhaca de um rosto visto de perfil ou a produção de sons que exigem o fechamento dos lábios podem indicar manipulação. Diferenças entre a movimentação labial e a voz, bem como imagens levemente borradas, permanecem como pistas, embora não sejam, isoladamente, prova de fraude.
O que realmente importa, de acordo com Avelino, é o contexto. Pedidos inesperados de dinheiro, apelo emocional, urgência para agir e tentativas de bloquear canais de verificação são bandeiras vermelhas. Ele recomenda: “A primeira regra é simples. Se o pedido envolve dinheiro, dados pessoais ou códigos de acesso, a verificação precisa acontecer fora do contato que trouxe o pedido”.
Procedimentos recomendados e mitigação de danos
Ao suspeitar de um golpe, a orientação mais eficaz é interromper a conversa e buscar contato por um canal já conhecido. “A melhor defesa, neste sentido, não é tentar vencer a IA no olho, mas adotar um protocolo”, afirma Avelino. No âmbito empresarial, solicitações fora do padrão devem ser confirmadas diretamente com o responsável interno antes de qualquer ação.
Se o golpe já ocorreu, a prioridade é conter a perda e preservar evidências. Em caso de transferência via PIX, a vítima deve contestar imediatamente pelo aplicativo ou canal oficial do banco e solicitar o Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Banco Central, que analisa a transação e tenta bloquear valores ainda em circulação, embora a devolução não seja garantida.
Quando senhas ou dados bancários são divulgados, é imprescindível bloquear cartões, encerrar acessos e trocar credenciais, iniciando pela conta de e-mail, que costuma ser a porta de entrada para a recuperação de outras contas. Se o agressor enviou material íntimo, a recomendação é não pagar, não negociar e guardar tudo antes de denunciar a plataforma responsável.
Um dado alarmante do relatório da Unico revela que um único perfil de fraudador esteve associado a 949 documentos de identidade diferentes e tentou atacar 30 empresas distintas. Essa multiplicidade evidencia a importância de compartilhamento de sinais de alerta entre organizações, pois um golpista identificado em uma empresa pode reaproveitar a mesma estratégia em outra.
Por fim, o estado de São Paulo concentra 22,06% dos alertas de fraude no país, reflexo da densidade digital da região. A combinação de migração massiva de serviços para o ambiente online e a facilidade de geração de identidades sintéticas – que misturam dados reais e falsos para criar personas inexistentes – cria um terreno fértil para novos tipos de crime que, segundo especialistas, crescem oito vezes ao ano e devem superar outras modalidades em breve.



