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23 setembro 2026

Série jurídica ‘Habeas Corpus’ chega à Netflix com elenco estrelado

Marjorie Estiano e Any Gabrielly lideram drama jurídico que expõe falhas do sistema de justiça brasileiro.

Série jurídica 'Habeas Corpus' chega à Netflix com elenco estrelado

Na madrugada do dia 23 de setembro de 2026 a Netflix adicionou ao seu catálogo nacional a sua primeira produção de drama jurídico de origem brasileira, intitulada Habeas Corpus. Disponível em oito episódios, a série já pode ser assistida por quem tem assinatura, e chega ao público em um momento de intenso debate sobre a eficácia da justiça no país.

O projeto nasce da vontade de transformar números e relatos de injustiças em narrativa audiovisual. A Innocence Project Brasil organização que já recebeu mais de 9 mil pedidos de revisão criminal, serve de bússola para a trama, que questiona se o direito à justiça é realmente universal ou se está condicionado a classe social e raça.

Um caso fictício que reflete a realidade

O ponto de partida da história é a professora de Direito Inez (interpretada por Marjorie Estiano), ex-advogada criminalista que decide montar um grupo de estudantes para analisar a condenação de um jovem que pode ter sido preso injustamente. Entre os alunos, destaca-se Marina (vivida por Any Gabrielly), cuja ligação pessoal com o processo vai muito além de um simples exercício acadêmico, carregando o peso de uma tragédia familiar que ainda ecoa.

A sala de aula transforma-se em campo de investigação, onde cada pista levantada provoca a revelação de segredos enterrados e a desestabilização de certezas consolidadas. Ao longo dos oito capítulos, a narrativa alterna entre o mundo jurídico dos advogados experientes, o cotidiano universitário dos estudantes – que incluem desde filhos de renomados profissionais até bolsistas oriundos de cotas – e a vida do réu, criando um panorama que evidencia a distância entre o ideal da lei e sua aplicação prática.

Produção que mergulha nos meandros da justiça

O comando criativo cabe a Luiz Villaça que também participou da criação ao lado de Leonardo Moreira e Donna Oliveira. A direção dos episódios foi dividida entre Villaça e Flávia Lacerda ambas responsáveis por manter o tom investigativo sem cair nos clichês das séries americanas de tribunal. A produção ficou a cargo da Café Royal com Adriana Tavares como produtora executiva.

Para garantir a verossimilhança, a equipe realizou uma série de workshops com advogados, compareceu a audiências reais e estudou procedimentos judiciais brasileiros. Villaça ressalta que “sem esse mergulho profundo nos tribunais, estaríamos sendo levianos ao tocar um assunto tão sensível”. Essa preparação reflete-se nos diálogos, que contam com termos técnicos destacados em negrito para orientar o espectador sobre o funcionamento do sistema.

Além de Estiano e Gabrielly, o elenco inclui Felipe RiccaHypólitoLuiza GabusNaruna CostaNicolas LeePaula CohenPedro RozaRenata Gaspar e Tato Gabus Mendes. Cada personagem traz à tona diferentes facetas da realidade judicial: desde advogados bem-sucedidos até jovens que lutam contra preconceitos socioeconômicos.

Reflexões sobre desigualdade e possibilidade de reparação

Durante as entrevistas, o diretor Luiz Villaça enfatiza que a série pretende “mostrar os meandros da injustiça e como ela opera segundo a classe social”. Dados do Innocence Project Brasil apontam que 99 % dos casos de prisão equivocada envolvem pessoas de baixa renda, majoritariamente negras. Essa estatística norteia a trama, que acompanha a professora e seus alunos ao confrontarem não apenas a condenação de um indivíduo, mas também o legado de omissões institucionalizadas.

A escolha de focar em um único caso ao longo de oito episódios difere o formato das produções norte-americanas, que costumam apresentar um caso por capítulo. Aqui, o espectador acompanha a evolução da investigação, os impasses nos tribunais e as tensões pessoais que surgem quando a busca pela verdade colide com interesses estabelecidos.

Ao final da temporada, Habeas Corpus não oferece respostas fáceis, mas instiga o público a refletir sobre como cada decisão judicial pode reverberar por décadas, e como a sociedade pode – ou deve – reagir diante de erros que não são apenas legais, mas profundamente humanos.

Rafael Oliveira