A manhã de 23/09/2026 ficou marcada em Madri pela retirada forçada de Maricarmen Abascal, uma senhora de 87 anos que há setenta anos habitava um apartamento de 92 m² no bairro do Retiro. O despejo foi executado por ordem judicial após o fundo de investimentos que adquiriu o imóvel em elevar o valor do aluguel em 275% passando de cerca de 500 euros para 2.650 euros mensais, valor totalmente incompatível com a sua pensão de 1.300 euros.
A ação provocou uma onda de indignação que rapidamente se transformou em protestos massivos. Na mesma noite, milhares de madrilenos ocuparam a Puerta del Sol, erguendo tendas e bandeiras que denunciavam a prática de especulação imobiliária. O Sindicato de Inquilinos de Madri e o Sindicato de Inquilinas organizaram acampamentos que permaneceram durante a última semana, cobrando do governo espanhol medidas urgentes para conter a crise habitacional.
Despejo e reação popular em Madri
O processo judicial chegou à Suprema Corte espanhola que acabou decidindo a favor do fundo de investimentos. Com apenas trinta minutos para recolher seus pertences, Maricarmen foi escoltada por membros da tropa de choque, levada em maca até uma ambulância e encaminhada ao Hospital Gregorio Marañón, onde foi internada por exaustão e ansiedade. Enquanto isso, manifestantes carregavam faixas com slogans como “Especuladores, voltem para casa” e “Moradia é para morar”, reforçando a percepção de que o caso simbolizava uma tragédia social em plena capital.
Acordo entre o fundo de investimento e a família de Maricarmen
Pressionada pela repercussão midiática e pelos protestos de rua, a empresa proprietária do imóvel chegou a um acordo com a advogada Beatriz Duro, representante de Maricarmen. Segundo Duro, “Esperamos que este acordo também sirva para mudar um pouco o paradigma da habitação”, ressaltando a “boa vontade de ambas as partes”. O novo contrato fixará um valor de aluguel “semelhante ao que ela vinha pagando”, permitindo que a idosa retorne ao apartamento assim que receber alta hospitalar. A negociação representou um raro exemplo de reconciliação em meio a um cenário de crise habitacional que se agrava na Espanha.
Repercussão política e debate sobre a crise habitacional
O caso de Maricarmen Abascal coincidiu com o debate parlamentar sobre o chamado “decreto Maricarmen”, proposto pelo governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez. O texto prevê, entre outras medidas, contratos de aluguel por prazo indeterminado e maior proteção contra despejos, embora traga controvérsias como a exclusão da renovação automática de contratos, ponto defendido pelos manifestantes. Para aprovar o pacote, o governo precisará do apoio de outras forças políticas, e até o momento o parceiro de coalizão Sumar não garantiu voto favorável.
Além das propostas legislativas, organizações como a Anistia Internacional Espanha denunciaram o despejo como “uma violação dos direitos humanos”. A ministra da Habitação, Isabel Rodríguez, acusou a administração regional de Madri de “estender o tapete vermelho a esses especuladores”. Enquanto isso, plataformas de aluguel de curta duração continuam sendo apontadas como fatores que reduzem a disponibilidade de moradias para residentes permanentes.
Com a assinatura do acordo, Maricarmen Abascal poderá voltar ao seu lar assim que for liberada do hospital, encerrando um episódio que mobilizou dezenas de milhares de cidadãos e reacendeu o debate sobre o futuro do direito à moradia na Espanha.



