Ir para o conteúdo
17 setembro 2026

Análise do JPMorgan revela preocupações com o setor bancário e o agronegócio

O Bradesco revelou que cerca de 10% da carteira de crédito do John Deere Bank migrou para uma categoria de risco maior, preocupando analistas sobre o impacto no Banco do Brasil.

Análise do JPMorgan revela preocupações com o setor bancário e o agronegócio

No segundo trimestre de 2026, o Bradesco divulgou dados que acenderam um sinal de alerta para o setor bancário, especialmente para o Banco do Brasil. Analistas do JPMorgan destacaram que cerca de 10% da carteira de crédito do John Deere Bank migrou da categoria Stage 1 para Stage 2 indicando uma deterioração relevante na qualidade dos empréstimos ligados ao agronegócio.

Essa migração significa que os bancos precisam provisionar perdas esperadas para toda a vida útil do contrato, elevando significativamente os custos de financiamento. O Banco do Brasil, com uma exposição significativa ao setor rural, está sob observação crítica, pois deve divulgar seus resultados no próximo dia 12.

Impacto no Banco do Brasil e no setor bancário

O John Deere Bank, que atua com crédito voltado ao agronegócio, teve 50% de sua participação adquirida pelo Bradesco em 2026. Segundo cálculos do JPMorgan, aproximadamente R$ 1,7 bilhão em operações migraram de Stage 1 para Stage 2 durante o trimestre. Considerando uma carteira de crédito de R$ 17,4 bilhões no primeiro trimestre de 2026, isso representa cerca de 9,6% do portfólio com deterioração de risco em apenas três meses.

Analistas como Yuri Fernandes, Guilherme Grespan e Fernanda Sayao classificaram o movimento como preocupante. Embora reconheçam que o segundo e o terceiro trimestres costumam concentrar pagamentos e renegociações no agronegócio, a deterioração observada foi significativamente pior do que a registrada no ano passado. O JPMorgan sugere que o agronegócio brasileiro atravessa um momento mais difícil do que em 2026, com expectativas de renegociação de dívidas contribuindo para um efeito de moral hazard.

Cenário econômico desafiador e estratégias do Bradesco

O CEO do Bradesco, Marcelo Noronha, afirmou que o cenário econômico do Brasil para o segundo semestre está pior e que o banco tem adotado uma postura mais conservadora na concessão de crédito. Noronha destacou que a instituição não está fazendo loucura e priorizará operações com garantias, mantendo o agronegócio sob monitoramento devido ao ciclo mais difícil enfrentado pelo setor e aos possíveis efeitos do El Niño.

O Bradesco registrou um lucro líquido recorrente de R$ 7,1 bilhões no segundo trimestre, alta de 16,2% em um ano. No entanto, as despesas com provisões para devedores duvidosos cresceram 21,4%, e a inadimplência acima de 90 dias avançou para 4,3%. O banco está ampliando a exposição a linhas com melhor retorno ajustado ao risco, como crédito consignado, financiamento de veículos e operações garantidas.

Perspectivas e medidas futuras

Apesar da avaliação cautelosa para o curto prazo, o JPMorgan vê possibilidade de melhora à frente. Historicamente, parte das operações classificadas em Stage 2 tende a retornar para categorias de menor risco durante o segundo semestre, à medida que ocorrem cobranças, renegociações e recuperações de crédito. Além disso, investidores acompanham os potenciais efeitos da MP 1376, medida voltada ao setor agropecuário que pode ajudar a reduzir a pressão financeira enfrentada pelos produtores rurais.

O mercado deposita expectativas de que a medida contribua para uma melhora do cenário já no terceiro trimestre. Enquanto isso, o Bradesco mantém um apetite de risco moderado para o segmento do agronegócio, monitorando de perto a evolução do setor.

João Pereira
Autor

João Pereira

João Pereira passou dez anos no buy-side em São Paulo cobrindo ações brasileiras e câmbio. Hoje escreve sobre o mercado para o investidor pessoa física.