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17 setembro 2026

Crise de chips de memória dispara custos de smartphones e laptops

A falta de chips de memória está encarecendo iPhones e forçando marcas como Fairphone e Framework a mudar estratégias.

Crise de chips de memória dispara custos de smartphones e laptops

A escassez de memória que se projetada para durar até 2027 está remodelando toda a cadeia de produção de smartphones e laptops. A demanda explosiva de data centers de inteligência artificial tem drenado o estoque global de DRAM e NAND, colocando os componentes mais baratos fora do alcance de quem vende aparelhos de entrada.

Empresas independentes como Fairphone (Holanda), Jolla (Finlândia) e Framework (EUA) estão adotando estratégias extremas para sobreviver. Raymond van Eck, CEO da Fairphone, resume a situação: “Se você não tiver alocação, está fora do jogo de qualquer maneira”. Para contornar a falta de chips, a Jolla projetou placas-mãe com módulos intercambiáveis, permitindo que usuários reinstalem memórias reaproveitadas de dispositivos antigos. A Framework, sem capacidade de estocar, faz pedidos irrevogáveis com antecedência, mesmo sem saber o preço final ou o prazo de entrega.

Impacto direto nos custos de produção

Em dispositivos cujo preço final gira em torno de US$ 400, a memória pode representar até 60 % do custo total, afirma van Eck. Cada fabricante tem reagido de forma distinta: a Framework ajusta os valores de venda assim que os custos sobem; a Jolla introduziu um upgrade pago de memória; a Fairphone, surpreendentemente, manteve os preços estáveis.

Segundo a TrendForce, os contratos de DRAM viram aumento de 13 % a 18 % neste trimestre, muito abaixo dos 93 %–98 % observados no primeiro trimestre. A Counterpoint Research, em junho, previu queda de 13,9 % nas remessas de smartphones em 2026 – 1,08 bilhão de unidades – o maior recuo anual já registrado, reflexo direto dos custos de memória.

Apple e o efeito “inflachip” nos preços

No Brasil, o recém-lançado iPhone 18 Pro chegou até R$ 3,5 mil mais caro que a versão anterior, um aumento de 18,9 %. O Pro Max, por sua vez, subiu entre R$ 3,5 mil e R$ 4,5 mil representando alta de até 18,9 %. Nos Estados Unidos, os aumentos chegaram a 25 % para o modelo de 2 TB. Tim Cook, CEO da Apple, descreveu a pressão como uma “enchente de 100 anos” nos preços dos componentes, enquanto a J.P. Morgan estima que a chamada inflachip eleve os valores de DRAM em mais de 400 % até o fim de 2026.

O salto de preço não foi uniforme: os modelos com maior capacidade de armazenamento – 1 TB e 2 TB – sofreram os maiores reajustes, enquanto as versões de 256 GB e 512 GB viram aumentos modestos, de cerca de R$ 500. A estratégia da Apple parece sacrificar o segmento premium para proteger a margem dos aparelhos de entrada, mantendo-os mais acessíveis apesar da crise.

Perspectivas para 2028 e além

Sami Pienimäki, CEO da Jolla, projeta que a oferta de memória só deve se normalizar a partir de 2028, embora o volume combinado de DRAM e armazenamento tenha atingido seu pico em março e se mantido estável desde então. Enquanto isso, fabricantes de memória como Micron, SK Hynix e Samsung ultrapassaram a marca de US$ 1 trilhão em valor de mercado, impulsionados pelos investimentos de gigantes de nuvem – a TrendForce aponta crescimento de 98 % em 2026 e mais 50 % em 2027, com DRAM e NAND respondendo por até 68 % desses investimentos.

A combinação de contratos de longo prazo, limitando a flexibilidade de produção, e a corrida por IA cria um cenário de escassez prolongada. Para quem depende de componentes baratos – desde marcas de smartphones de budget até fabricantes de laptops reparáveis – o futuro ainda exige adaptação constante, testes rigorosos de autenticidade de chips e modelos de negócios que antecipem a volatilidade dos suprimentos.

Vasco Sousa
Autor

Vasco Sousa

Vasco Sousa coordena salas de edição em Lisboa com porte executivo e fato escuro, conhecido por afinar pautas em reuniões rápidas no Miradouro de São Pedro de Alcântara. Exerceu funções editoriais em suplementos locais, licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade de Lisboa e colecionador de cadernos de reportagem antigos.