A escassez de memória que se projetada para durar até 2027 está remodelando toda a cadeia de produção de smartphones e laptops. A demanda explosiva de data centers de inteligência artificial tem drenado o estoque global de DRAM e NAND, colocando os componentes mais baratos fora do alcance de quem vende aparelhos de entrada.
Empresas independentes como Fairphone (Holanda), Jolla (Finlândia) e Framework (EUA) estão adotando estratégias extremas para sobreviver. Raymond van Eck, CEO da Fairphone, resume a situação: “Se você não tiver alocação, está fora do jogo de qualquer maneira”. Para contornar a falta de chips, a Jolla projetou placas-mãe com módulos intercambiáveis, permitindo que usuários reinstalem memórias reaproveitadas de dispositivos antigos. A Framework, sem capacidade de estocar, faz pedidos irrevogáveis com antecedência, mesmo sem saber o preço final ou o prazo de entrega.
Impacto direto nos custos de produção
Em dispositivos cujo preço final gira em torno de US$ 400, a memória pode representar até 60 % do custo total, afirma van Eck. Cada fabricante tem reagido de forma distinta: a Framework ajusta os valores de venda assim que os custos sobem; a Jolla introduziu um upgrade pago de memória; a Fairphone, surpreendentemente, manteve os preços estáveis.
Segundo a TrendForce, os contratos de DRAM viram aumento de 13 % a 18 % neste trimestre, muito abaixo dos 93 %–98 % observados no primeiro trimestre. A Counterpoint Research, em junho, previu queda de 13,9 % nas remessas de smartphones em 2026 – 1,08 bilhão de unidades – o maior recuo anual já registrado, reflexo direto dos custos de memória.
Apple e o efeito “inflachip” nos preços
No Brasil, o recém-lançado iPhone 18 Pro chegou até R$ 3,5 mil mais caro que a versão anterior, um aumento de 18,9 %. O Pro Max, por sua vez, subiu entre R$ 3,5 mil e R$ 4,5 mil representando alta de até 18,9 %. Nos Estados Unidos, os aumentos chegaram a 25 % para o modelo de 2 TB. Tim Cook, CEO da Apple, descreveu a pressão como uma “enchente de 100 anos” nos preços dos componentes, enquanto a J.P. Morgan estima que a chamada inflachip eleve os valores de DRAM em mais de 400 % até o fim de 2026.
O salto de preço não foi uniforme: os modelos com maior capacidade de armazenamento – 1 TB e 2 TB – sofreram os maiores reajustes, enquanto as versões de 256 GB e 512 GB viram aumentos modestos, de cerca de R$ 500. A estratégia da Apple parece sacrificar o segmento premium para proteger a margem dos aparelhos de entrada, mantendo-os mais acessíveis apesar da crise.
Perspectivas para 2028 e além
Sami Pienimäki, CEO da Jolla, projeta que a oferta de memória só deve se normalizar a partir de 2028, embora o volume combinado de DRAM e armazenamento tenha atingido seu pico em março e se mantido estável desde então. Enquanto isso, fabricantes de memória como Micron, SK Hynix e Samsung ultrapassaram a marca de US$ 1 trilhão em valor de mercado, impulsionados pelos investimentos de gigantes de nuvem – a TrendForce aponta crescimento de 98 % em 2026 e mais 50 % em 2027, com DRAM e NAND respondendo por até 68 % desses investimentos.
A combinação de contratos de longo prazo, limitando a flexibilidade de produção, e a corrida por IA cria um cenário de escassez prolongada. Para quem depende de componentes baratos – desde marcas de smartphones de budget até fabricantes de laptops reparáveis – o futuro ainda exige adaptação constante, testes rigorosos de autenticidade de chips e modelos de negócios que antecipem a volatilidade dos suprimentos.



