Na manhã de 8 de setembro, os investidores de quatro fundos originados pela Gauss Capital reuniram-se em assembleias para deliberar sobre a transferência da gestão para a B.Side Wealth Management gestora vinculada ao ASA de Alberto Safra. Enquanto três dos fundos obtiveram aprovação confortável, o Zaftra – único fundo brasileiro focado em operar nos mercados durante eleições – viu seu futuro ficar incerto.
Resultados das assembleias de 8 de setembro
Conforme atas divulgadas pela administradora S3 Caceis o Gauss Multimercado recebeu respaldo de 79,84% dos votos, permitindo a troca de gestor. O Zaftra CIC também superou o patamar necessário, com 70,96% dos cotistas apoiando a mudança. Por outro lado, o Gauss CIC ficou aquém do quórum, registrando apenas 49,55% dos votos, insuficiente para alcançar os 50% exigidos. Já a votação no Zaftra Multimercado não foi concluída, gerando um impasse que acabou sendo remetido à CVM.
O impasse do Zaftra e a intervenção da CVM
O Zaftra está estruturado em duas camadas: o feeder Zaftra CIC que capta recursos dos investidores, e o Zaftra Multimercado que efetivamente investe e do qual o CIC detém 62,65%. Na reunião matinal, os cotistas do CIC recomendaram ao ASA – gestor oficial do fundo – que aprovasse a transferência do Multimercado, prevista para a sessão da tarde. Contudo, o ASA não compareceu ao voto.
Os detentores dos restantes 37,35% do Multimercado optaram pela mudança, mas, sem o apoio do ASA, a soma não atingiu a maioria necessária. Diante da ausência de resultado, a S3 Caceis não proclamou a decisão e encaminhou o caso à CVM. Agora, a homologação da transferência depende de uma deliberação da autoridade reguladora ou da convocação de nova assembleia do Zaftra Multimercado, situação que pode se arrastar por semanas.
Contexto da disputa entre Gauss Capital e ASA
A reconstituição dos quatro fundos – que totalizam aproximadamente R$ 220 milhões e concentram 400 cotistas – faz parte de um embate mais amplo entre a Gauss Capital e o ASA. Em junho do ano passado, o ASA absorveu os fundos e parte da equipe da Gauss, inclusive o sócio-fundador e antigo CIO Fábio Okumura. Okumura assumiu a gestão de recursos de terceiros do ASA, mas saiu da instituição em junho deste ano, durante uma reestruturação que também viu a saída de outros executivos.
Para a Gauss, a saída de Okumura configurou violação do acordo firmado, desencadeando uma disputa judicial. Enquanto o processo tramitava, alguns cotistas – entre eles ex-sócios da Gauss – solicitaram a troca de gestora. Em resposta, o ASA requereu liminar para suspender as assembleias inicialmente agendadas para 27 de agosto; o pedido foi rejeitado pelo juiz Fábio Henrique Prado de Toledo da 3ª Vara Empresarial e de Conflitos Relacionados à Arbitragem de São Paulo.
Embora o ASA não tenha comentado publicamente os resultados das assembleias, o bloqueio na aprovação do Zaftra levanta dúvidas sobre a capacidade do fundo de operar nas próximas eleições brasileiras – evento que costuma demandar preparações intensas nos últimos dias do mês. Um executivo, que preferiu permanecer anônimo, descreveu a situação como “extremamente complicada” ao ocorrer em “momento decisivo para o fundo, que pode não operar a eleição do Brasil, uma das mais importantes”.
Paralelamente, o ASA está lançando um fundo chamado ASA Election também direcionado à atuação em períodos eleitorais e já registrado na CVM. O desenvolvimento de um produto concorrente ao Zaftra pode intensificar a disputa por recursos e por credibilidade no nicho de investimentos ligados a ciclos políticos.



