No sertão cearense, mais precisamente no distrito de Oliveiras, em Tamboril, a cerca de 287 km de Fortaleza, um agricultor de 33 anos chamado Francisco testemunhou um fenômeno raro na natureza. No topo de uma árvore de 15 metros de altura, ele descobriu um ninho com dois filhotes de carcará, desafiando a crença popular de que apenas um filhote sobreviveria.
Francisco, movido pela curiosidade, decidiu acompanhar de perto a rotina dos filhotes e do carcará adulto que os alimentava. Ele começou a subir na árvore todos os dias pela manhã, equipado com uma câmera adaptada, para registrar cada momento dessa jornada única.
O fenômeno do cainismo e a exceção em Tamboril
O comportamento conhecido como cainismo em referência à história bíblica de Caim e Abel, é comum entre aves de rapina. Nesse fenômeno, um filhote mata o outro devido à escassez de alimento. O biólogo Sanjay Veiga Mendonça explicou que essa agressividade é um mecanismo de sobrevivência da espécie.
“Esses gatilhos de agressividade são geralmente disparados por escassez de alimento“, afirmou Sanjay. “Quando tem alimento em abundância, a agressividade é menor, sobrevivem os dois. Quando tem o alimento em menor abundância, um filhote entra em agressividade e termina matando o outro.”
No entanto, os dois filhotes de carcará em Tamboril desafiaram essa regra. Francisco registrou momentos em que o filhote menor “roubava” a comida do maior, que era a prioridade do adulto. No dia 25 de agosto, o filhote maior realizou seu primeiro voo, e três dias depois, o adulto retornou para alimentar o filhote caçula que permaneceu no ninho.
A resiliência do carcará e a alimentação variada
Sanjay Veiga Mendonça explicou que a sobrevivência dos dois filhotes pode ser atribuída à alimentação variada do carcará. Diferente de outras aves de rapina, o carcará se alimenta de quase tudo, desde carniças até animais expostos pela aradura da terra.
“É mais difícil um carcará passar por uma grande escassez de comida“, destacou o biólogo. “Elas não comem carniças, elas não são grandes oportunistas como o carcará. Elas realmente ficam mais restritas a caçar presas vivas e, muitas vezes, essas presas vivas podem sofrer uma escassez maior, e o filhote sentir muita fome e desencadear essa agressividade.”
A resiliência do carcará também é celebrada na música homônima de Chico Buarque e João do Vale, lançada em 1981. A letra da música reflete a capacidade do carcará de sobreviver em condições adversas.
O acompanhamento familiar e a relação parental
Francisco iniciou as filmagens em 20 de julho e, desde então, registrou diversos momentos da rotina dos filhotes e do carcará adulto. Ele destacou a dificuldade de subir na árvore todos os dias, mas a curiosidade e o interesse pelo comportamento das aves o mantiveram motivado.
“A sorte é que eu sou maneiro. Sorte que eu sou ‘magrinho’, aí dá pra gente fazer isso [subir todo dia]“, comentou Francisco. “Mas, para qualquer outra pessoa, é difícil subir.”
Sanjay Veiga Mendonça explicou que os carcarás possuem uma relação parental prolongada com os filhotes, mesmo após eles saírem do ninho. “Ele vai continuar muito tempo sendo acompanhado pelos pais, para ir aprendendo a viver“, afirmou o biólogo.
Nesta quinta-feira (3), Francisco registrou um momento especial: o irmão mais velho retornou ao ninho e reencontrou o caçula. Esse reencontro reforça a relação familiar e a complexidade da vida dos carcarás.



