Em meio a centenas de milhares de iniciativas que emergem do desejo de transformar realidades, a administração surge como o ponto de convergência entre idealismo e resultados tangíveis. O terceiro setor, formado por mais de 900 mil organizações sociais registradas no país, depende de processos estruturados para garantir que cada ação vá além da boa vontade e se torne sustentável ao longo do tempo.
O papel estratégico da administração nas organizações sociais
Valdinei Valério, diretor-geral do Instituto Promover (IPHAC) e formado em administração pela Universidade Luterana do Brasil, enfatiza que muitas ONGs nascem de uma visão apaixonada, mas carecem do aparato técnico necessário para transformar essa energia em impacto mensurável. Segundo ele, “o papel da administração é fundamental visto que as organizações sociais são geralmente estabelecidas por uma ideia de um fundador, um idealizador.” A gestão, nesse contexto, funciona como a ponte que conecta o propósito ao desempenho efetivo.
Gilmar Camargo, vice-presidente do Conselho Federal de Administração (CFA) e presidente da Organização Latino-Americana de Administração, corrobora essa visão ao afirmar que o administrador deve atuar em múltiplas frentes dentro da ONG, garantindo que recursos financeiros, humanos e operacionais sejam canalizados para a missão institucional. Ele destaca que competências como planejamento, organização, gestão financeira, gestão de pessoas e análise de indicadores são essenciais para que a entidade entregue resultados alinhados ao seu objetivo social.
Profissionalização na prática: os casos Abrace e Instituto Futuro e Ação
Juliana Batista, superintendente executiva da Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace), ilustra na prática como a profissionalização da gestão pode garantir a permanência de uma organização. A Abrace atende atualmente 911 famílias conta com 88 funcionários e mobiliza cerca de 300 voluntários. “Ao profissionalizar o processo de gestão, a instituição sobrevive. As organizações que não se profissionalizam hoje, realmente, não têm vida longa”, afirma Juliana.
Para atender essa demanda, a Abrace estruturou núcleos operacionais, definiu um plano de cargos e salários e adotou indicadores, metas e planejamento estratégico. Cada decisão administrativa, segundo ela, tem que estar ancorada na missão de apoiar crianças com câncer e suas famílias, pois “só de boa intenção, no terceiro setor, nenhuma instituição sobrevive”.
Em paralelo, Joelma Oliveira Bonfim, presidente do Instituto Futuro e Ação (IFA), reforça que a gestão eficiente equivale a cuidado direto com as pessoas atendidas. O IFA oferece educação a crianças de 0 a 3 anos e, para manter o serviço, depende de processos bem definidos, da captação de recursos e da prestação de contas transparente. Joelma comenta: “Gestão eficiente também é uma forma de cuidar de pessoas. Cada recurso precisa ser usado com responsabilidade, planejamento e transparência, pois por trás de cada decisão há uma criança, uma família e uma comunidade que dependem daquele trabalho.”
Impacto econômico e sustentabilidade das ONGs
O efeito multiplicador da administração vai além do alcance social; ele também alimenta a economia local. Valério destaca que o IPHAC gera empregos para assistentes sociais, administradores, psicólogos e contadores no distrito federal, além de proporcionar renda adicional às famílias jovens inseridas no mercado de trabalho. “Quando conseguimos colocar um jovem no emprego, a remuneração vira apoio para a renda familiar”, afirma.
Gilmar Camargo traz dados do Ipea que apontam que organizações da sociedade civil empregavam mais de 2 milhões de pessoas e movimentavam cerca de R$ 32 bilhões por ano representando aproximadamente 1,4 % do PIB na época analisada. Ele ressalta que, embora esses números reflitam um recorte específico, eles evidenciam que o impacto social e a relevância econômica não são opostos: uma entidade sem fins lucrativos pode, sim, gerar empregos, contratar serviços e impulsionar a atividade econômica.
Em síntese, a presença de profissionais de administração nas ONGs transforma boas intenções em projetos sustentáveis, garante transparência no uso de recursos públicos e privados, e cria condições para que a missão social se expanda de forma escalável. Conforme afirmam os líderes citados, o futuro das organizações do terceiro setor depende da capacidade de aliar paixão a competências técnicas, tornando a gestão não apenas um apoio, mas o motor que impulsiona o impacto.



