A inteligência artificial está revolucionando a forma como acessamos informações na internet. No entanto, essa transformação não vem sem consequências. Desde maio de 2026, os AI Overviews do Google, resumos gerados por IA, têm reduzido significativamente o tráfego direto para sites jornalísticos, colocando em risco o financiamento do jornalismo profissional no Brasil.
Especialistas alertam que essa mudança não só afeta a sustentabilidade financeira dos veículos de comunicação, mas também a integridade da informação. Com a proliferação de fake news impulsionadas pelas mesmas plataformas que dominam o mercado de IA, a qualidade da informação disponível ao público está em jogo.
O Impacto nos Veículos de Notícias
A Associação de Jornalismo Digital (Ajor) que assessora 152 veículos online no Brasil, revelou que um em cada quatro portais de notícias perdeu mais de 20% da audiência em 2026. Carla Egydio, diretora de Relações Institucionais da Ajor, destacou que essa queda é preocupante porque prejudica a atração de publicidade e o financiamento baseado em métricas de audiência.
“O ecossistema jornalístico hoje vive um cenário de crise. Parte da publicidade já migrou para plataformas digitais. Os veículos que se financiavam principalmente por publicidade têm uma dificuldade muito grande de manter seus negócios. Esse resumo da IA aprofunda um contexto de crise do jornalismo”, afirmou Carla Egydio.
Além disso, os resumos da IA fornecidos pelos buscadores não oferecem todo o conteúdo das reportagens, o que pode levar à descontextualização e prejudicar o debate público. Em casos extremos, há até cópia literal do conteúdo, configurando plágio.
O Caso do Business Insider
Um exemplo notório é o do veículo Business Insider que demitiu 21% dos funcionários em maio de 2026 devido à queda no tráfego de usuários impulsionada pelos resumos de IA dos buscadores. Barbara Peng, da direção executiva da companhia, explicou que 70% do negócio da empresa é sensível ao tráfego de usuários no site.
“Precisamos estar estruturados para suportar quedas extremas de tráfego fora do nosso controle, por isso estamos reduzindo o tamanho geral da nossa empresa”, declarou Barbara Peng.
O Marco Regulatório da IA
No Brasil, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) tem pressionado pela aprovação do PL 2338 que tramita na Câmara desde março de 2026. O projeto prevê que as empresas de IA remunerem pelo uso de conteúdos protegidos pela Lei dos Direitos Autorais, incluindo reportagens jornalísticas.
Samira de Castro, presidenta da Fenaj, revelou que o lobby das big techs tem sido um obstáculo significativo. “Elas querem tirar toda essa parte que fala de direito autoral. Esse é um dos pontos que têm emperrado esse projeto na Câmara”, afirmou Samira.
Apesar das fragilidades, o projeto traz avanços para garantir a remuneração do trabalho dos jornalistas. No entanto, ainda não cria mecanismos específicos de transparência sobre quais conteúdos jornalísticos foram utilizados para treinar modelos de IA.
O Atraso na Câmara
O presidente da Câmara, deputado Hugo Motta definiu o Marco Regulatório da IA como uma das prioridades do primeiro semestre. No entanto, o projeto não avançou no último semestre. A assessoria de Motta informou que aguarda a manifestação do relator, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB).
“A definição de uma data depende de o relator apresentar o parecer. E, diante do atual período eleitoral, o projeto deverá ser votado após as eleições de outubro”, informou a assessoria de Motta.
A comissão especial que analisa o tema não se reúne desde novembro de 2026. Aguinaldo Ribeiro tem defendido que o tema precisa ser mais debatido, especialmente o capítulo que trata da remuneração pelo uso de conteúdos protegidos por direitos autorais.
Críticas das Empresas de Tecnologia
O texto que chegou do Senado é criticado pelas empresas de tecnologia, que alegam que o dispositivo sobre direitos autorais “na prática, inviabiliza o treinamento de novos modelos locais de IA”.
“A proposta de legislação brasileira, dessa forma, poderá isolar o Brasil no desenvolvimento da IA, além de impactar investimentos em infraestrutura digital”, diz nota de diversas organizações empresariais, entre elas, a Associação das Empresas de Tecnologia (Brasscom).
Apoio do Governo Federal
O governo federal tem defendido a aprovação do PL 2338. Marcos Alves de Souza, secretário de Direitos Autorais e Intelectuais do Ministério da Cultura, argumentou que tem crescido a judicialização envolvendo direitos autorais.
“Enquanto esse PL não for aprovado, o uso não autorizado de conteúdo jornalístico, ou qualquer conteúdo protegido por direitos de autor, para o treinamento de sistemas de IA, constitui violação de, ao menos, sete dispositivos da lei de direito autoral”, comentou Souza.
Investigação do Cade e Acordos Privados
Enquanto o Congresso não vota o marco regulatório da IA, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu uma investigação em abril de 2026 sobre a conduta do Google e os impactos do uso da IA no mercado de mídia.
O conselho avalia se a gigante da tecnologia abusou de sua posição dominante ao utilizar conteúdos jornalísticos em ferramentas de IA sem remunerar os veículos responsáveis. Por outro lado, dois grandes jornais brasileiros, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo fecharam acordos privados com a OpenAI e o Google, respectivamente.



