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17 setembro 2026

Como a medicina personalizada está transformando o tratamento do colesterol

A cardiologia moderna está adotando uma abordagem mais personalizada para o tratamento do colesterol, considerando diversos fatores de risco além do LDL

Como a medicina personalizada está transformando o tratamento do colesterol

A conversa sobre colesterol já não é tão simples quanto antes. Antigamente, bastava verificar o nível de LDL, conhecido como colesterol ruim para determinar se estava tudo bem. Hoje, sabemos que a avaliação é muito mais complexa.

Duas pessoas podem ter o mesmo nível de LDL e apresentar riscos completamente diferentes de sofrer um infarto ou um acidente vascular cerebral (AVC). Isso acontece porque o colesterol é apenas uma das peças do quebra-cabeça da saúde cardiovascular.

O colesterol e seus limites

O LDL continua sendo um dos principais responsáveis pela formação de placas de gordura nas artérias, processo conhecido como aterosclerose. Quanto maior a exposição ao colesterol elevado ao longo da vida, maior o risco de desenvolver doenças cardiovasculares.

No entanto, outros fatores influenciam diretamente essa evolução. Idadepressão altadiabetestabagismoobesidade histórico familiar de infarto precoce, doença renal crônica e estilo de vida podem aumentar ou reduzir esse risco, mesmo quando o colesterol apresenta valores semelhantes entre duas pessoas.

Ferramentas avançadas para uma prevenção personalizada

Nos últimos anos, a cardiologia passou a incorporar novas ferramentas para refinar a avaliação de risco em pacientes selecionados. Entre elas estão a lipoproteína(a) uma partícula cuja concentração é determinada principalmente pela genética e que pode aumentar o risco cardiovascular mesmo em pessoas com colesterol aparentemente controlado.

Outro exame importante é a apolipoproteína B (ApoB) que estima a quantidade de partículas potencialmente capazes de penetrar na parede das artérias e participar da formação das placas de aterosclerose. Já o escore de cálcio coronariano obtido por tomografia computadorizada, permite identificar a presença de calcificações nas artérias do coração antes mesmo do aparecimento de sintomas.

Esses exames não fazem parte do check-up de rotina de toda a população. Eles são indicados em situações específicas, quando existe dúvida sobre o risco cardiovascular ou necessidade de definir estratégias mais individualizadas de prevenção.

O futuro da prevenção cardiovascular

Um dos conceitos mais importantes da cardiologia atual é o de carga acumulada de colesterol. Isso significa que o organismo sofre os efeitos do colesterol elevado ao longo de décadas, muitas vezes sem provocar qualquer sintoma.

Quando o infarto ou o AVC acontecem, a aterosclerose geralmente já vem se desenvolvendo silenciosamente há muitos anos. Por isso, identificar precocemente pessoas com maior risco permite iniciar mudanças no estilo de vida e, quando necessário, tratamento medicamentoso antes que as artérias sofram danos mais importantes.

Quanto mais cedo o colesterol é controlado em quem realmente precisa, maior tende a ser a redução do risco cardiovascular ao longo da vida. A medicina está deixando para trás a ideia de que todos os pacientes devem receber exatamente a mesma abordagem.

Hoje, o objetivo é compreender o perfil de risco de cada pessoa e decidir quais exames, metas e tratamentos fazem sentido para aquela realidade. Alguns pacientes precisarão apenas reforçar hábitos saudáveis. Outros se beneficiarão de medicamentos para reduzir o colesterol. Em grupos específicos, exames complementares ajudarão a definir se é necessário intensificar a prevenção.

Essa é a principal mudança da cardiologia moderna: tratar pessoas, e não apenas resultados de laboratório. No Dia Nacional de Combate ao Colesterol, a mensagem mais importante é que o colesterol continua sendo um grande vilão das doenças cardiovasculares, mas a prevenção eficaz depende de uma avaliação muito mais ampla, individualizada e baseada em evidências.

Texto escrito pela cardiologista Dra. Ana Paula Andrade Garcia (CRM-SP 151.840).

Rafael Oliveira