No Brasil, a responsabilidade pelo cuidado dos filhos, familiares e do lar ainda recai predominantemente sobre as mulheres. Essa sobrecarga, aliada a outras formas de dependência, cria um ambiente propício para a violência de gênero. Enquanto a Lei Maria da Penha completa 20 anos, especialistas discutem como a distribuição desigual das tarefas de cuidado impacta a segurança das mulheres.
Em dezembro de 2026, a Política Nacional de Cuidados foi criada para promover a corresponsabilização social entre homens e mulheres. No entanto, a implementação dessa política ainda enfrenta desafios significativos, especialmente para as mulheres negras, que são as mais afetadas pelas desigualdades sociais e históricas.
O peso do trabalho de cuidado
A professora Thamires da Silva Ribeiro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) destaca que as mulheres sobrecarregadas com o trabalho de cuidado estão frequentemente isoladas em seus lares, sem autonomia econômica. “Fica mais difícil de sair das situações de violência”, afirma Ribeiro. Ela ressalta que as condições são ainda mais críticas para as mulheres negras, que são o próprio sistema de cuidados no Brasil.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua 2026 mostram que as mulheres gastam, em média, 21,3 horas semanais com atividades de cuidado, enquanto os homens dedicam apenas 11,7 horas a essas tarefas. Essa disparidade contribui para a vulnerabilidade das mulheres à violência de gênero.
A violência em números
A violência contra as mulheres é uma realidade alarmante no Brasil. Em 2026, o país registrou 1.571 vítimas de feminicídio, um aumento de 4% em relação ao ano anterior. Oito em cada dez casos foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros. Além disso, foram registrados 286,3 mil casos de agressão doméstica, 788,6 mil casos de ameaças e 132 mil episódios de descumprimento de medida protetiva de urgência, um mecanismo da Lei Maria da Penha.
A advogada Marilha Boldt presidente da Comissão de Combate à Violência contra a Mulher da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção RJ destaca que a dependência financeira e emocional são fatores que aprisionam as mulheres em relacionamentos abusivos. “O que a aprisiona é a noção de que ela depende financeiramente, mas, na verdade, ela tem uma dependência emocional”, explica Boldt.
O papel do patriarcado
A superintendente Claudia Araujo da Secretaria Estadual de Políticas Inclusivas do Rio de Janeiro, aponta o sistema patriarcal como um dos motivos que dificulta o rompimento do ciclo de agressão. “A mulher ainda é vista como aquela que tem que cuidar da casa, do marido, dos filhos e ainda trabalhar”, afirma Araujo. Ela enfatiza que a Lei Maria da Penha fortalece o entendimento de que as mulheres não podem permanecer sozinhas no enfrentamento à violência.
Instituições como a Central de Atendimento à Mulher Ligue 180 e a Polícia Militar (acessada pelo número 190) são canais importantes para denúncias de violência doméstica. Além disso, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mantém uma página com contatos de delegacias especializadas e defensorias públicas que podem ajudar as vítimas.


