O 11 de setembro de 2001 marcou um ponto de virada na história dos Estados Unidos e do mundo. Os ataques terroristas que abalaram o World Trade Center o Pentágono e um campo na Pensilvânia deixaram um legado que se estende por mais de duas décadas. Entre as muitas vidas afetadas, três histórias se destacam: a de Scott Larsen, filho de um bombeiro que perdeu a vida no desabamento das Torres Gêmeas; a do Dr. Michael Crane, que dedicou sua carreira a cuidar dos socorristas; e a de Michael Tuohey, que se pergunta se poderia ter evitado a tragédia.
Essas histórias revelam como o 11 de setembro não apenas remodelou a política de segurança nacional dos EUA, mas também transformou vidas individuais de maneiras profundas e duradouras.
Scott Larsen: seguindo os passos do pai
Scott Larsen tinha apenas 4 anos quando seu pai, um bombeiro da cidade de Nova York, morreu no desabamento do World Trade Center. Seu pai, então com 35 anos havia sido designado temporariamente para o Lower Manhattan vindo de seu quartel habitual em Woodside, Queens. Ele foi um dos 343 membros do Corpo de Bombeiros de Nova York (FDNY) que perderam suas vidas naquele dia.
Anos depois, Scott seguiu os passos do pai. Ele ingressou no FDNY e conseguiu uma vaga no mesmo quartel de Woodside onde seu pai havia servido. “Era algo dentro de mim. Eu sempre quis vir para cá”, disse Larsen, hoje com 29 anos durante uma entrevista no quartel. Ele não é o único: 58 filhos de bombeiros do FDNY que morreram no 11 de setembro também seguiram essa carreira, segundo dados da Associação Internacional de Bombeiros.
No quartel, Larsen está cercado por lembranças de seu pai. O nome do pai está gravado em uma placa memorial e pintado em um caminhão de bombeiros. Fotos dele estão penduradas na cozinha e na sala de descanso. “A memória dele vem à tona todos os dias, sinceramente. Não há um único dia em que eu venha aqui e não olhe para ele”, afirmou Larsen. Ele é a terceira geração de bombeiros em sua família. Seu irmão mais novo, nascido dois dias após o 11 de setembro, foi aprovado no vestibular e espera ingressar no FDNY no ano que vem.
Dr. Michael Crane: cuidando dos heróis
O Dr. Michael Crane, diretor médico do Programa de Saúde do World Trade Center nunca deixou de ajudar as equipes de resgate. Após os ataques, dezenas de milhares de policiais, bombeiros, funcionários de serviços públicos e trabalhadores da construção civil atuaram nos escombros no centro de Nova York, conhecidos como “a pilha”. A busca por sobreviventes e restos mortais continuou por meses sob nuvens persistentes de poeira.
Como diretor médico da Con Edison empresa de energia elétrica de Nova York, Crane era responsável por proteger as equipes de resgate e limpeza, garantindo que cada um tivesse um respirador devidamente ajustado. No entanto, fornecer os respiradores acabou sendo a parte fácil, já que eles rapidamente ficavam entupidos de poeira. Muitos simplesmente jogavam os respiradores de lado.
Nos primeiros dias dos trabalhos de recuperação, um jovem apareceu no consultório de Crane com uma tosse forte depois de trabalhar nos escombros. Quando Crane lhe disse para tirar alguns dias de folga e procurar tratamento, o homem recusou. Um membro da família do jovem estava soterrado, lembrou Crane em uma entrevista no Hospital Mount Sinai onde agora atua como diretor médico do Programa de Saúde do World Trade Center. “Naquele momento, percebi que aquilo não era apenas uma questão nacional ou estadual, era algo pessoal”, disse Crane, de 74 anos.
O Programa de Saúde do World Trade Center, financiado pelo governo, oferece assistência médica para doenças relacionadas ao 11 de setembro a mais de 150 mil socorristas e sobreviventes. Até 30 de junho as pessoas no programa haviam recebido cerca de 85 mil atestados para condições de saúde relacionadas ao World Trade Center. Cerca de metade estava ligada à inalação ou ingestão de poeira tóxica e cerca de 30% eram por câncer. Mais de 9.000 socorristas acompanhados pelo programa faleceram desde o 11 de setembro.
Um quarto de século após os ataques, Crane ainda se sente profundamente comovido pelos trabalhadores de resgate. “Você se apaixona por essas pessoas. Elas são incríveis, simplesmente resilientes, engraçadas, um pouco malucas. E, mesmo com tudo o que passaram, são realmente fortes mentalmente e orgulhosas do que fizeram”, afirmou.
Michael Tuohey: perguntas sem resposta
Michael Tuohey, como tantos outros afetados pelo 11 de setembro, vive com perguntas sem resposta. Como agente de atendimento ao cliente de uma companhia aérea, Tuohey ajudou dois dos sequestradores a fazer o check-in para seus voos no Aeroporto Internacional de Portland no Maine. Mohammad Atta e Abdul Aziz al Omari chegaram apenas meia hora antes do voo.
Tuohey verificou as passagens em papel dos homens para ver se haviam sido compradas recentemente ou pagas em dinheiro, o que teria levantado suspeitas mesmo para os padrões anteriores ao 11 de setembro. Mas as passagens haviam sido compradas com semanas de antecedência, pagas com cartão de crédito e eram para a primeira classe. “Tive a impressão de que o cara mais velho e mais baixo não estava gostando de estar ali”, disse Tuohey, referindo-se a Atta. “E pensei: são 5h30 da manhã. Ninguém quer acordar às 5h30 da manhã.”
Após os ataques, as falhas da inteligência norte-americana que não detectaram a conspiração da Al Qaeda foram amplamente analisadas. O Departamento de Segurança Interna foi criado, os procedimentos de segurança nos aeroportos reformulados e o país adotou uma rede de novas leis de segurança. No entanto, enquanto os primeiros raios de Sol aqueciam o céu do leste sobre Portland naquela manhã fria de outono, Tuohey não tinha como saber os horrores que aquela manhã traria.
“Meu instinto estava certo, mas havia leis, havia leis contra a discriminação com base em perfis”, disse Tuohey, hoje com 80 anos e aposentado. “Não dei ouvidos ao meu instinto. E isso acabou se revelando uma coisa terrível. Mas não é que eu estivesse certo. É só que isso poderia ter mudado alguma coisa. Não que tivesse mudado, mas poderia ter mudado. Quem sabe?”



