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30 setembro 2026

Decisão judicial devolve validade ao decreto de Milei sobre propriedades rurais

A Suprema Corte anulou a suspensão do decreto de Javier Milei, permitindo que estrangeiros comprem áreas rurais sem o teto de 15% estabelecido em 2011.

Decisão judicial devolve validade ao decreto de Milei sobre propriedades rurais

A Suprema Corte da Argentina decidiu, na terça-feira, 29 de setembro, anular a medida judicial que suspendeu o decreto de necessidade e urgência (DNU) 70/2023. O pronunciamento, assinado pelos ministros Horacio Rosatti, Carlos Rosenkrantz e Ricardo Lorenzetti, restabelece a vigência do artigo 154 do decreto, que suprime as restrições impostas à aquisição de terras rurais por investidores estrangeiros.

Reversão do bloqueio judicial

O impedimento havia sido obtido por meio de ação movida pelo Centro de Ex-Combatentes das Ilhas Malvinas de La Plata (CECIM). O tribunal inferior considerou que as limitações da Lei de Terras Rurais vigente desde 2011, violavam princípios de livre iniciativa e, portanto, suspendeu a parte do decreto que elimina o teto de 15% de posse estrangeira. Contudo, a Suprema Corte entendeu que o CECIM não tinha legitimidade para apresentar a ação, alegando ausência de um direito de incidência coletiva sobre um bem coletivo. Como consequência, a Corte devolveu ao Executivo a capacidade de aplicar o decreto, sem analisar sua constitucionalidade.

Contexto da Lei de Terras de 2011

A lei promulgada durante o governo de Cristina Kirchner estabelecia que, no máximo, 15% das terras rurais argentinas poderiam estar sob propriedade estrangeira, além de impor limites por província e município e restrições baseadas na nacionalidade dos compradores. Javier Milei, ao assumir a presidência, promulgou o DNU 70/2023 apenas dez dias depois, dentro de um pacote mais amplo de desregulamentação econômica que visava reduzir a intervenção estatal e atrair capital externo.

Com a decisão da Corte, o revogado texto legal volta a vigorar, permitindo que investidores – tanto pessoas físicas quanto empresas – adquiram áreas rurais sem o limite de 15% ou as restrições de 1.000 hectares em zonas agrícolas de alto valor. O governo argumenta que a flexibilização pode acelerar a entrada de investimentos estrangeiros e dinamizar o setor agropecuário.

Reações políticas e societais

A medida gerou protestos de setores opositores. O deputado socialista Esteban Paulón afirmou que “a Argentina não será vendida”, enquanto o advogado constitucionalista Andrés Gil Domínguez acusou a Suprema Corte de legislar “pelas costas do povo argentino e dos heróis da Guerra das Malvinas”. O CECIM, por sua vez, denunciou a decisão como um “problema político do governo” e afirmou que “colocou a República Argentina à venda”.

O episódio surge menos de dois meses depois do Congresso rejeitar, em votação, a tentativa de flexibilizar as mesmas regras por meio do projeto de Lei de Inviolabilidade da Propriedade Privada. Assim, a batalha judicial representa a última via para o Executivo de avançar com sua agenda de abertura de mercados, enquanto a oposição permanece vigilante quanto à soberania territorial.

Vasco Sousa
Autor

Vasco Sousa

Vasco Sousa coordena salas de edição em Lisboa com porte executivo e fato escuro, conhecido por afinar pautas em reuniões rápidas no Miradouro de São Pedro de Alcântara. Exerceu funções editoriais em suplementos locais, licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade de Lisboa e colecionador de cadernos de reportagem antigos.