Ir para o conteúdo
23 setembro 2026

Desafios de privacidade nos óculos de IA: processos e estratégias das empresas

A disputa entre funcionalidade e privacidade coloca os óculos inteligentes de IA sob intenso escrutínio global.

Desafios de privacidade nos óculos de IA: processos e estratégias das empresas

Dispositivos vestíveis equipados com inteligência artificial estão sendo apontados como a próxima evolução dos smartphones. Ao poder observar, ouvir e responder ao ambiente, os óculos inteligentes prometem tornar tarefas cotidianas mais fluidas. Entretanto, a mesma capacidade de captura de imagens e sons tem despertado preocupações sérias sobre privacidade sobretudo quando pessoas são gravadas sem consentimento.

Processos contra a Meta e o dilema da gravação automática

Os modelos desenvolvidos em parceria entre a Meta e a EssilorLuxottica tornaram-se emblemáticos da tensão entre utilidade e direito ao anonimato. Acusações apresentadas em processos judiciais alegam que gravações realizadas pelos óculos foram enviadas aos servidores da Meta, onde funcionários as analisaram para treinar algoritmos de IA. Entre os vídeos supostamente revisados estavam cenas de pessoas trocando de roupa, usando banheiros e manipulando informações financeiras – situações que, segundo a acusação, ocorreram sem o conhecimento dos envolvidos.

O advogado Ryan Clarkson defende que não é razoável esperar que consumidores, ao comprarem um dispositivo prometido como privado, aceitem vigilância tão intrusiva. Em contrapartida, a Meta destaca uma luz indicadora que se acende sempre que a câmera está ativa, afirmando que cobrir ou danificar essa luz desativa automaticamente a gravação. A empresa ainda ressalta que a filtragem de dados para remover identificadores pessoais é prática padrão no setor.

Gigantes da tecnologia e a busca por formatos menos invasivos

A Samsung pretende lançar seus óculos ainda este ano, mas adota uma estratégia distinta: em parceria com Gentle Monster e Warby Parker a empresa aposta em designs que não pretendem substituir o smartphone, mas complementar o cotidiano. O executivo Jay Kim declarou que “os formatos vencedores serão aqueles que tornarem a interação com a tecnologia mais natural, útil e confiável”.

Do mesmo modo, o CEO da OpenAISam Altman visualiza um dispositivo que compreenda o contexto do usuário e saiba quando intervir. Em entrevista, Altman afirmou: “Você quer um dispositivo em que possa confiar… que tenha todo o contexto e saiba quando ser útil e quando não ser”. Para ele, a solução passa por processamento local evitando que dados sensíveis circulem continuamente pela nuvem.

Startups que eliminam a câmera como resposta ao medo de vigilância

Enquanto as corporações buscam aprimorar o controle de gravações, algumas startups optam por remover a câmera totalmente. A Even Realities fundada em Shenzhen (China) por Will Wang ex-engenheiro da Apple, lançou em 2024 o modelo G1 sem câmera, seguido pelo G2 em novembro de 2025. Wang observa que os consumidores já associam óculos inteligentes a gravações ocultas e que a inclusão de câmeras deve esperar até que mecanismos de proteção sejam mais robustos. A empresa, avaliada em US$ 1 bilhão (R$ 5,12 bilhões) em julho, projeta alcançar algumas centenas de milhares de usuários até o final do ano, com cerca de 90 % das vendas destinadas ao consumidor final.

Outro caminho adotado é o de gravadores ativados manualmente. A startup americana Pocket desenvolveu um dispositivo que só registra quando o usuário pressiona um botão, similar ao acionamento de câmeras de smartphone. O produto já conta com cerca de 170 mil unidades em uso, inclusive por funcionários de empresas como DoorDash, Michelin e Santander. Já a Plaud comercializa o Plaud One Explorer Edition um gravador vestível de US$ 249,99 (R$ 1.279,95) que só grava ao ser ativado e avisa ao entorno com luzes ou sinal sonoro. A empresa relata 2,5 milhões de usuários e mais de US$ 100 milhões (R$ 512 milhões) em receita recorrente anual.

Especialistas apontam que a questão central não é a rejeição da tecnologia, mas a necessidade de transparência. Jitesh Ubrani diretor da consultoria IDC, compara a situação ao surgimento de câmeras nos smartphones: a sociedade precisa garantir consentimento claro sempre que alguém for gravado. Essa expectativa de confiança pode determinar se os óculos de IA se tornarão a próxima grande plataforma de computação ou permanecerão como nicho restrito.

João Pereira
Autor

João Pereira

João Pereira passou dez anos no buy-side em São Paulo cobrindo ações brasileiras e câmbio. Hoje escreve sobre o mercado para o investidor pessoa física.