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17 setembro 2026

Disciplina: O segredo por trás do alto desempenho segundo Paulo Muzy

Paulo Muzy, especialista em medicina do esporte, compartilha sua visão sobre disciplina e como ela é essencial para manter o foco e alcançar objetivos de longo prazo

Disciplina: O segredo por trás do alto desempenho segundo Paulo Muzy

Manter uma rotina quando os resultados não aparecem imediatamente é um dos maiores desafios para quem busca alto desempenho. Essa dificuldade pode surgir na repetição de tarefas, no controle dos impulsos e na capacidade de continuar executando mesmo nos dias mais desafiadores.

No episódio 14 da 4ª temporada do programa Mapa Mental no canal GainCast o médico ortopedista e especialista em medicina do esporte Paulo Muzy compartilhou sua visão sobre a disciplina e como ela é fundamental para alcançar objetivos de longo prazo.

O propósito como alicerce da disciplina

Para Muzy, a disciplina não começa com a repetição diária de uma tarefa, mas sim com a compreensão do porquê daquele esforço. “Disciplina é a capacidade de você fazer as coisas que você não gosta, porque você tem um propósito” define.

Ele explica que objetivos eventuais não sustentam uma rotina. É preciso distinguir um desejo momentâneo de uma razão capaz de produzir envolvimento mais duradouro. “Tem aquela coisa eventual que você tem uma motivação passageira e que ela não chega a se tornar um compromisso” observa.

O propósito aciona uma sequência na qual a motivação é apenas uma etapa. Depois, o compromisso conduz à repetição, e o tempo transforma o comportamento em algo consistente. “O propósito vai gerar motivação, vai gerar o compromisso. Isso gera consistência, e essa consistência ao longo do tempo a gente começa a chamar de disciplina” explica.

Desafios da disciplina na era da satisfação imediata

Construir esse comportamento exige renunciar ao alívio oferecido pelo presente. O aprendizado exige manter a escolha alinhada ao resultado mais distante. “Buscando sempre o sim para aquilo que é o objetivo final” afirma Muzy.

Ele destaca que a recompensa sustenta tarefas desconfortáveis. Sem uma razão que compense o incômodo, a execução tende a perder força. “Se expor ao desconforto de ter de fazer aquilo que você não quer na hora que você não quer e do jeito que você não gostaria” explica.

No entanto, esse esforço passou a disputar espaço com estímulos capazes de entregar prazer quase instantaneamente. O desafio, portanto, não está apenas na tarefa que precisa ser cumprida, mas também nas alternativas disponíveis para adiá-la. “A gente entra na nossa era, onde o que mais existe é satisfação imediata. Ou formas de oferta de satisfação imediata” comenta.

Muzy não atribui o imediatismo exclusivamente às gerações atuais. Para ele, a tecnologia ampliou a variedade e o volume de oportunidades para atender impulsos que já existiam. “Acho que as pessoas sempre foram imediatistas. A questão é que não existia tecnologia ou volume suficiente para que elas conseguissem exercer isso” argumenta.

O exemplo de Cristiano Ronaldo

Um exemplo que ilustra a disciplina aplicada longe dos estádios e dos treinamentos físicos é a relação profissional de Muzy com Cristiano Ronaldo. O médico contou que presenteou o jogador com um curso sobre fisiologia do exercício, emagrecimento e desenvolvimento muscular.

Mesmo podendo delegar o tema, o atleta estudou o conteúdo. “Cristiano Ronaldo é capaz de sentar e assistir 60 horas de aula em três semanas. É esse o nível da inteligência dele” revela. Além disso, o jogador não encerrou o processo depois de assistir às aulas. Em seguida, pediu uma ligação para aprofundar os assuntos e esclarecer os pontos que haviam despertado interesse.

Segundo Muzy, o comportamento ganha relevância porque o jogador não dependia daquele curso para receber as informações. Ainda assim, dedicou tempo ao material e buscou compreender o conteúdo em vez de se limitar a respostas prontas. “Ele sentou na cadeira, estudou aquilo e recebeu de presente” recorda.

Consequentemente, o episódio funciona como uma demonstração de disciplina aplicada longe dos estádios e dos treinamentos físicos. O diferencial estaria em continuar fortalecendo os fundamentos mesmo depois de alcançar resultados que permitiriam transferir essa responsabilidade. “Ele é uma pessoa que está sempre investindo naquilo que é a base daquilo que ele faz” destaca.

Beatriz Almeida