A controvérsia envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) ultrapassou a esfera institucional e tornou-se um dos principais eixos da campanha presidencial de 2026. Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro tentam transformar o mesmo conjunto de fatos – a suspeita de irregularidades ligadas ao Banco Master e a relação entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes – em vantagem política, mas até o momento nenhum dos dois conseguiu impor sua versão de forma dominante.
Estratégias eleitorais em torno da crise do STF
Flávio Bolsonaro adotou a linha clássica do bolsonarismo, ao atacar a atuação do STF e, principalmente, do ministro Alexandre de Moraes. No feriado de 7 de Setembro o candidato declarou que votar em Lula equivale a apoiar Moraes. Na sessão de terça-feira, 15 de setembro quando o plenário não chegou a decidir sobre a possível investigação do ministro, ele reforçou a conexão, acusando ainda ministros indicados por Lula de “blindar” o magistrado. O pedido de vista feito por Flávio Dino alimentou ainda mais esse discurso, ao interromper o julgamento antes de seu mérito.
Já a campanha de Lula tenta preservar a legitimidade institucional do STF, destacando que a Corte foi fundamental na defesa da democracia durante os ataques ao sistema eleitoral de 8 de Janeiro. Ao mesmo tempo, o presidente procura desvincular sua figura da atuação de Moraes, apontando que o ministro foi indicado por Michel Temer em 2017 e já ocupou cargos em governos do PSDB antes de integrar a Corte. Na entrevista à Folha de S.Paulo Lula descreveu a sessão como um “show de horrores” e pediu transparência nas relações entre Vorcaro e ministros do STF.
Posicionamento dos ministros e desdobramentos judiciais
Na sessão extraordinária do STF, o presidente Edson Fachin foi o primeiro a votar contra a questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes, que defendia a união dos processos envolvendo Moraes e André Mendonça. Fachin contou com o apoio de André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia, mantendo separados os dois casos. Por outro lado, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e o próprio Moraes votaram a favor da conexão. Flávio Dino inicialmente se alinhou com os que pediam a união, mas depois recuou e solicitou pedido de vista interrompendo o julgamento por até 90 dias.
Os documentos divulgados revelam 52 mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes, encontros presenciais e um contrato de R$ 130 milhões entre o banco e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Essa revelação desencadeou uma disputa entre Moraes e o relator André Mendonça, que alegou ter liberado seletivamente partes dos autos. A decisão de Fachin de separar os processos significa que a investigação sobre as mensagens será analisada ainda nesta terça-feira, enquanto o caso contra Mendonça ficará marcado para 23 de setembro.
Impacto nas pesquisas eleitorais
Os números das pesquisas refletem a complexidade da situação. O levantamento da AtlasIntel/Bloomberg divulgado em 17 de setembro indica quase empate na percepção de quem está mais envolvido nas fraudes do Master: 41,2 % dos entrevistados apontam aliados de Jair Bolsonaro, 40,2 % citam aliados de Lula e 13,8 % consideram que ambos os lados têm responsabilidade. Quando a pergunta se volta para a crise no STF, 49,5 % acreditam que ela prejudica mais Lula, apenas 20,9 % dizem que Flávio sofre maior desgaste e 14,4 % vêem impacto semelhante para os dois candidatos.
O Datafolha revelou que 76 % dos brasileiros acreditam que os ministros do STF têm poder excessivo, enquanto 77 % percebem perda de confiança na Corte; paradoxalmente, 71 % ainda consideram o STF essencial à democracia. Entre eleitores de Flávio, 85 % veem excesso de poder, contra 67 % entre os apoiadores de Lula. Outra pesquisa da Meio/Ideia divulgada em 9 de setembro mostrou que 47,9 % dos respondentes afirmam que a ligação entre Flávio e Vorcaro reduz sua intenção de voto, enquanto 32,2 % dizem que a informação não altera sua decisão.
A evolução do apoio público ao Banco Master também é notável. Em março, apenas 28,3 % dos entrevistados apontavam aliados de Bolsonaro como os mais envolvidos; esse número subiu para 36 % em junho e chegou a 41,2 % em setembro – um ganho de 12,9 pontos em seis meses. Já a percepção sobre os aliados de Lula permaneceu praticamente estável, passando de 39,5 % para 40,2 % no mesmo período. Embora não seja possível atribuir a mudança exclusivamente à estratégia do PT, os dados indicam que a vantagem que o campo bolsonarista tinha em março praticamente desapareceu.
Em síntese, a crise no STF continua a ser uma arma de duas mãos. Enquanto Flávio Bolsonaro tenta transformar o desgaste da Corte em um problema para Lula, o presidente ainda tenta defender a instituição sem se tornar responsável pelos atos de Moraes. Enquanto isso, o eleitorado permanece dividido, e as próximas decisões judiciais podem ainda mudar o rumo das narrativas políticas.



