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6 outubro 2026

Estratégias para dialogar com o eleitor evangélico no Brasil

O texto mostra como a escuta genuína pode melhorar o diálogo entre esquerda e eleitores evangélicos, evitando preconceitos.

Estratégias para dialogar com o eleitor evangélico no Brasil

Nas últimas semanas, o debate público tem sido marcado por críticas intensas às decisões de eleitores que apoiam candidatos conservadores. Enquanto a frustração dos derrotados tem seu motivo, o que realmente falta é a curiosidade sobre os caminhos que conduzem esses eleitores até suas escolhas. Essa falta de questionamento transforma divergência em julgamento moral e dificulta tanto a vitória nas urnas quanto a convivência democrática.

Em programa da TV Folha, o colunista Juliano Spyer recontou uma conversa de 2020 com o pastor Henrique Vieira deputado do PSOL. Ao indagar como alguém de esquerda e com formação acadêmica poderia se aproximar de uma eleitora evangélica, Vieira respondeu com um conselho simples, porém profundo: “em vez de tentar convencer, tenta conhecer”. Essa frase virou eixo para repensar a estratégia de diálogo entre diferentes espectros políticos.

Desmistificando o conservadorismo evangélico

Um dos obstáculos mais frequentes ao diálogo está na suposição de que todo evangélico seria manipulado por líderes religiosos e que toda postura conservadora seria parte de uma suposta teologia do domínio. Na prática, o conservadorismo na comunidade cristã pode surgir de múltiplas motivações: defesa da estrutura familiar tradicional, identificação com o capitalismo empreendedor ou busca por benefícios institucionais para a igreja. Essas razões podem coexistir ou aparecer isoladamente, e nem sempre trazem a intenção explícita de impor um modelo cristão à sociedade.

É importante, porém, diferenciar correntes teológicas. A teologia do domínio nasceu como reação aos ensinamentos liberais que reinterpretabam a Bíblia, reafirmando milagres, a ressurreição corporal de Jesus e a inerrância bíblica. Seus defensores adotaram técnicas modernas de argumentação para provar a veracidade das Escrituras. Por outro lado, associar pentecostais apenas ao Antigo Testamento e igrejas reformadas ao Novo Testamento é incorreto. Na teologia do pacto central à tradição reformada, as promessas do Antigo Testamento encontram cumprimento em Cristo, estabelecendo continuidade entre ambas as partes da Bíblia.

Sete montes e a estratégia de influência

Outro conceito que aparece nos discursos evangélicos é a chamada teologia dos sete montes. Essa ideia propõe que áreas como educação, política, arte, economia, mídia, família e religião seriam “montanhas” a serem dominadas para que valores cristãos permeiem a sociedade. A linguagem pode soar como um chamado à conquista institucional, mas, para alguns grupos, serve apenas como convite ao engajamento cidadão.

A organização missionária Jovens com uma Missão por meio da Jocum defende essa participação como serviço social, rejeitando a imposição de valores e pedindo independência perante o Estado. Em contraste, o pregador americano Lance Wallnau um dos principais divulgadores da teologia dos sete montes, descreve as instituições como territórios em batalha contra o mal, sugerindo a necessidade de conquista ativa.

Quando a fé se transforma em ação pública

Não se pode negar que a fé pode ser instrumentalizada por projetos autoritários que protegem governantes de críticas e restringem direitos. Contudo, o engajamento cristão também traz contribuições relevantes ao debate público, sobretudo em favor dos grupos mais vulneráveis. Neste ano, a entidade Justiça Pública e a Aliança Cristã Evangélica Brasileira participaram de uma campanha contra os danos provocados pelas apostas esportivas (bets). Além disso, a Aliança mobilizou voluntários e recursos para apoiar famílias atingidas pelas fortes chuvas na Zona da Mata mineira.

Ao mesmo tempo, a bancada evangélica no Congresso deve ser fiscalizada. Quem alega representar os cristãos precisa ser responsabilizado por decisões que priorizem interesses de igrejas ou aliados em detrimento do bem-comum nacional. O diálogo, portanto, começa com a escuta atenta e a disposição de conhecer, como sugeriu Henrique Vieira, antes de tentar mudar posições.

Beatriz Almeida