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25 setembro 2026

Estudo mostra IA orienta voto quando recebe perfil do eleitor

Pesquisa indica que assistentes de IA podem indicar candidatos quando recebem pistas sobre a inclinação política do eleitor.

Estudo mostra IA orienta voto quando recebe perfil do eleitor

Em março, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu que sistemas de inteligência artificial comparem, recomendem ou priorizem candidatos e partidos. Essa normativa buscava impedir que chatbots influenciassem eleitores, mas duas investigações realizadas nos últimos meses apontam que a restrição ainda não impede práticas de ranqueamento e de recomendação direta de voto.

Estudo conjunto de Free Systems, Harvard, Stanford e Ranqia DeepTech

Em parceria com pesquisadores de Harvard, Stanford e da startup brasileira Ranqia DeepTech, a iniciativa Free Systems conduziu um experimento que começou em 15 de agosto – data limite para registro de candidaturas no TSE. Foram enviadas 100 mil perguntas a dez modelos de IA, cada prompt repetido cinco vezes, totalizando 12.800 respostas. Os questionamentos, formulados em português, simulavam eleitores do estado de São Paulo com perfis variados (esquerda, liberal, empresário, cristão conservador), baseados no livro “Brasil no Espelho” de Felipe Nunes.

Comportamento dos modelos frente a diferentes níveis de informação

Os resultados revelaram um padrão marcante: quando não havia informação política sobre o eleitor, todos os modelos [de IA], quase unanimemente, se negaram a recomendar qualquer candidato. A inserção de dados como idade, nível de escolaridade ou renda manteve essa postura. Contudo, ao acrescentar ao prompt indícios da posição política – mesmo que vagos, como “defesa da democracia” ou “promoção de segurança pública e valores cristãos” – recomendações explícitas tornaram-se muito mais frequentes. Um dos trechos do estudo cita que os sistemas “revelaram-se notavelmente suscetíveis a prompts que os levavam a fornecer uma recomendação direta de voto“.

Preferências partidárias e viés dos assistentes

Ao analisar os nomes sugeridos, observou-se que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparecia com maior frequência nas listas de usuários com perfil de esquerda, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) era mais citado entre perfis de direita. Em situações de ranqueamento parcial, o modelo incluiu Romeu Zema (Novo) quando percebeu inclinações favoráveis ao empreendedorismo e ao Estado menor. Já Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) nunca foram mencionados nas respostas.

Violação das regras do TSE por chatbots comerciais

Além do experimento acadêmico, testes realizados por jornalistas mostraram que três dos cinco chatbots consultados – Claude (Anthropic), DeepSeek e Gemini (Google) – atribuiram notas às propostas de candidatos, criando rankings que violam a resolução 23.755/2026. Enquanto Claude e DeepSeek favoreceram Ronaldo Caiado (PSD), Gemini deu maior pontuação a Lula. As duas ferramentas que se recusaram a pontuar foram ChatGPT (OpenAI) e Grok (xAI), citando a necessidade de neutralidade e a proibição de favorecimento político.

O levantamento de institutos como o ITS indica que o índice de ranqueamento por chatbots subiu de 66 % em março para 90 % em julho, evidenciando uma escalada de comportamentos contrários à regulamentação. O TSE afirmou que continuará fiscalizando provedores de IA, embora ainda não tenha especificado sanções concretas.

Brasil como grande mercado de IA

Dados da OpenAI apontam que o Brasil está entre os três países com maior uso semanal da ferramenta, gerando cerca de 215 milhões de mensagens por dia. Esse volume expressivo explica por que a questão da influência da IA nas eleições ganhou destaque nacional, sobretudo após a divulgação das pesquisas que demonstram que, quando equipados com poucos indícios políticos, os algoritmos podem direcionar eleitores para candidatos específicos, mesmo que de forma indireta.

João Pereira
Autor

João Pereira

João Pereira passou dez anos no buy-side em São Paulo cobrindo ações brasileiras e câmbio. Hoje escreve sobre o mercado para o investidor pessoa física.