Na noite de 1º de outubro, a TV Globo anunciou, a poucos minutos do início, o cancelamento do debate presidencial que deveria ocorrer após o Jornal Nacional, às 21h30 (horário de Brasília). A decisão chegou após duas liminares que alteraram regras já acordadas entre as campanhas, gerando o que a própria emissora classificou como “insegurança jurídica”.
A medida deixou o cenário eleitoral sem o último grande confronto direto entre os dois candidatos que lideram as pesquisas – Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Cada um seguiu um caminho distinto: o presidente optou por uma entrevista exclusiva no Flow Podcast, transmitida no YouTube, enquanto o senador fez uma live nas redes sociais, acusando censura e interferência do Judiciário.
Decisões judiciais que paralisaram o debate
A primeira liminar veio da ministra Estela Aranha do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a pedido da coligação do PT. A determinação impediu que a emissora mantivesse no estúdio a cadeira vazia identificada com o nome de Lula, bem como proibiu que os demais candidatos formulassem perguntas ao ausente. Essa medida derrubou um item previamente assinado por todas as partes, que previa a exibição da cadeira vazia como parte da tradição dos debates presidenciais.
Logo em seguida, o ministro Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu outra decisão que obrigou a Globo a incluir o candidato Renan Santos, do partido Missão, no programa. A ação partiu do partido Solidariedade, que buscava garantir a presença de representantes de partidos com representação mínima no Congresso. Assim, o quadro inicialmente composto por Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) recebeu a adesão de Santos.
Além dessas duas intervenções, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, determinou, no dia 29/09, a participação de Romeu Zema (Novo), após reconhecer que seu partido possuía cinco parlamentares para os fins da lei que regula a obrigatoriedade de convite a debates. Todas essas alterações tornaram inviável a realização do programa nos moldes previstos.
Repercussão dos candidatos
Com o cancelamento oficial, Lula manteve a decisão já anunciada na quarta-feira (30/09) de não comparecer ao debate. Em vez disso, ele participou de uma entrevista individual no Flow Podcast transmitida pelo YouTube a partir das 20h45. O formato permitiu ao presidente falar por mais tempo, sem réplicas ou contraréplica de oponentes, e ele aproveitou para criticar a prática de ataques mútuos em debates televisivos, defendendo a escolha por outros meios de comunicação.
Flávio Bolsonaro, que inicialmente confirmara presença na Globo para explorar a ausência de Lula, alterou sua postura após a liminar de Aranha. O senador utilizou uma transmissão ao vivo nas redes sociais para denunciar o que chamou de “censura” e “interferência do Judiciário nas eleições”, convocando eleitores a comparecerem às urnas no domingo, 4 de outubro, e a repudiar a decisão judicial que, segundo ele, prejudicou a liberdade de imprensa.
Impacto no cenário eleitoral
O cancelamento do debate removeu a última oportunidade de confronto direto antes da votação do primeiro turno. As pesquisas divulgadas até 30/09 mostravam Lula com 40% de intenção de voto, enquanto Flávio Bolsonaro acumulava 38%, segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil. Sem o debate, a disputa ficou limitada a narrativas veiculadas em entrevistas individuais e lives potencialmente reduzindo a oportunidade de eleitores compararem projetos em tempo real.
Além do embate entre os dois principais concorrentes, a presença de candidatos como Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) demonstra a complexidade do cenário multipartidário, reforçada pelas decisões judiciais que ampliaram ou restringiram a participação de alguns nomes. A Globo informou que, diante da incerteza jurídica, substituiria a programação prevista por um capítulo inédito da novela “Quem Ama Cuida”.
Resta, portanto, observar como a ausência de um debate televisivo tradicional influenciará a decisão dos eleitores no domingo. Enquanto isso, os candidatos continuam a utilizar plataformas digitais para alcançar o público, marcando uma mudança de paradigma na comunicação política brasileira.



