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2 outubro 2026

Resultados iniciais e desafios do comércio UE-Mercosul segundo Sefcovic

Maros Sefcovic revela crescimento de mais de 200% em produtos brasileiros, explica obstáculos sanitários e descreve a nova estratégia comercial da UE.

Resultados iniciais e desafios do comércio UE-Mercosul segundo Sefcovic

Em entrevista por e-mail, o comissário europeu de comércio Maros Sefcovic ressaltou que, embora o comércio internacional esteja cada vez mais politizado, a União Europeia não vive uma guerra comercial com os Estados Unidos. Ele destacou que a principal resposta do bloco tem sido a ampliação de acordos de livre-comércio, com o acordo UE-Mercosul assumindo papel central na diversificação de parceiros.

A aplicação provisória do tratado começou em 1º de maio de 2026 e, nos primeiros quatro meses, as exportações brasileiras para a UE subiram 23,5 % em relação ao mesmo período do ano anterior. Essa elevação supera o crescimento médio das exportações nacionais, que foi de 11 %, representando um avanço de 12,5 pontos percentuais especificamente para o mercado europeu. Entre os produtos que mais se beneficiaram, destacam-se os abacates (+443 %), o óleo de milho bruto (+347 %) e o café torrado (+232 %).

Resultados iniciais do acordo UE-Mercosul

Além do impulso nas exportações de bens agroalimentares, o acordo UE-Mercosul fortalece uma relação de investimentos já consolidada. A UE continua sendo o maior investidor estrangeiro no Brasil, com um estoque de investimentos avaliado em € 276 bilhões (cerca de R$ 1,6 trilhão) em 2024. Sefcovic espera que a redução tarifária leve a um aumento gradual desses fluxos, gerando novos empregos e estimulando cadeias produtivas em ambos os continentes.

O comissário ainda enfatizou que, embora o Tribunal de Justiça da União Europeia ainda precise analisar a conformidade jurídica do tratado, o acordo já está em vigor em sua totalidade de forma provisória. Isso significa que empresas e cidadãos já colhem os benefícios, enquanto o Parlamento Europeu e os Estados-membros avançam na ratificação definitiva.

Obstáculos regulatórios e setoriais

Nem tudo avançou sem entraves. As exportações de carne bovina foram suspensas após a UE apontar um uso excessivo de antibióticos na pecuária brasileira. As auditorias realizadas, porém, concluíram que os controles de antimicrobianos nos setores de aves e mel são positivos. Sefcovic afirmou que as recomendações resultantes serão encaminhadas aos Estados-membros, permitindo a retomada das exportações de produtos de origem animal assim que obtiverem aprovação.

Um segundo ponto de tensão refere-se à cota de aço imposta pela UE, que afeta também a siderurgia brasileira. A medida, baseada em salvaguardas existentes, foi adotada para proteger um setor que perdeu 65 milhões de toneladas de capacidade e cerca de 100 mil empregos. Sefcovic garantiu que a UE permanece disponível para diálogos construtivos com o Brasil, visando um ajuste que equilibre a segurança econômica europeia e as necessidades exportadoras brasileiras.

Estratégia da UE diante da politização do comércio

Em relação à relação com os Estados Unidos, Sefcovic declarou que, embora haja pressão tarifária, a UE prefere o diálogo ao confronto. A UE já negociou uma Declaração Conjunta que limita a 15 % as tarifas americanas sobre produtos europeus, excetuando setores estratégicos como aeronaves e medicamentos genéricos. Essa abordagem, segundo ele, reforça a estabilidade e a previsibilidade para empresas de ambos os lados.

Quanto à China, o comissário alertou para o “déficit comercial” crescente e sua influência sobre o futuro modelo social europeu. Ele anunciou que a delegação da DG Trade está em Pequim para avançar nas consultas sobre comércio e investimento, com foco em re-equilíbrio das exportações, acesso a mercado e controle de terrões raros. Paralelamente, a UE celebra novos acordos, como o tratado de livre-comércio com as Filipinas, ampliando ainda mais seu leque de parceiros estratégicos.

Por fim, Sefcovic reafirmou confiança na resiliência da parceria entre a UE e o Brasil, mesmo diante de propostas políticas internas, como a do candidato Flávio Bolsonaro de retirar o país do Mercosul. “O acordo permanece válido independentemente de decisões internas”, enfatizou, acrescentando que a UE continuará a respeitar a soberania democrática brasileira enquanto busca fortalecer laços comerciais mutuamente benéficos.

Vasco Sousa
Autor

Vasco Sousa

Vasco Sousa coordena salas de edição em Lisboa com porte executivo e fato escuro, conhecido por afinar pautas em reuniões rápidas no Miradouro de São Pedro de Alcântara. Exerceu funções editoriais em suplementos locais, licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade de Lisboa e colecionador de cadernos de reportagem antigos.