Em um cenário político cada vez mais volátil, os chamados eleitores independentes ganham destaque. Esses indivíduos, que não se alinham permanentemente a um único campo político, podem ser decisivos nas eleições de 2026. Uma série de reportagens percorreu diversas cidades brasileiras, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador, para entender melhor esse perfil.
Em São Paulo, a capital paulista, conhecida por sua volatilidade eleitoral foi o ponto de partida. A cidade tem um histórico de mudar de lado em diferentes eleições, refletindo a diversidade de seus eleitores. A jornalista Renata Lo Prete e o diretor da Quaest, Felipe Nunes, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), exploraram diferentes regiões da capital para entender as motivações e preocupações desses eleitores.
Entregadores: liberdade e desafios
A Zona Leste de São Paulo, uma região com um alto contingente de trabalhadores autônomos, foi a primeira parada. Aqui, entregadores de moto compartilharam suas experiências e preocupações. A Prefeitura de São Paulo estima que cerca de 350 mil pessoas ganham a vida fazendo entregas de moto na capital.
Para muitos desses entregadores, a liberdade e a autonomia são os principais atrativos do trabalho. Micaías Alves do Amor Divino, um entregador, contou que começou a trabalhar ainda na infância e que a possibilidade de empreender e sustentar sua família com mais qualidade foi um dos principais motivos para escolher essa profissão. “Eu prefiro ser assim também. Porque, querendo ou não, incentiva a gente a trabalhar mais, montar um plano na cabeça, juntar um dinheiro”, afirmou.
No entanto, a liberdade vem acompanhada de desafios. A preocupação com acidentes e a falta de proteção social são comuns entre os entregadores. Cícero José Cordeiro da Silva, outro entregador, destacou que a autonomia é valorizada, mas a falta de apoio em situações de emergência é uma realidade. “Muito motoboy aí, se toma um acidente, já era. Vai ficar de cama um bom tempo. Vai ter um apoio do governo?”, questionou.
Profissionais da beleza: proteção e futuro
Na Região Metropolitana de São Paulo, mais de 140 mil pessoas estão registradas como microempreendedoras individuais (MEIs) do setor de beleza. A série também ouviu profissionais desse setor, que compartilharam suas preocupações e aspirações. Janine Mendes Pereira, manicure, brincou dizendo que as dívidas são uma das principais motivações para trabalhar todos os dias, mas também destacou a importância da segurança e da educação.
Helen Melo, cabeleireira, falou sobre a rotina intensa e as dificuldades de conciliar trabalho e família. “É bem corrido. Tenho que levantar cedo para levar para a escola, vir trabalhar, tenho minha mãe que fica com ela, para também poder trabalhar”, contou. Apesar das dificuldades, as profissionais demonstraram otimismo e disposição para participar das eleições. Janine disse que ainda não escolheu candidato, mas pretende analisar as propostas.
Empreendedores: representação política e democracia
O terceiro grupo ouvido pela reportagem estava na Zona Oeste de São Paulo e reunia profissionais ligados ao empreendedorismo e à inovação. Nunes classificou esse grupo como liberais sociais eleitores que historicamente votaram em candidatos do PSDB e que, em 2026, mudaram de lado. A mudança levanta uma questão para 2026: o que esses eleitores farão diante das opções disponíveis?
Alex Appel, cofundador de uma empresa de alimentação, afirmou que muitos empreendedores começam um negócio justamente para se afastar da política. No entanto, ele destacou a importância do voto para escolher um governo capaz de apoiar empresas, geração de empregos e inovação. Lucas de Lima Neto, diretor executivo, defendeu um Estado que regule e ofereça serviços em áreas nas quais a iniciativa privada não teria interesse em atuar.
Apesar da falta de identificação com os candidatos, os entrevistados demonstraram disposição para participar das eleições. Lucas, que viveu durante a ditadura militar, considerou a democracia um valor inegociável. “Eu vivi a ditadura. Eu era diretor de centro acadêmico na época da ditadura. Então, a questão democrática, para mim, é básica”, afirmou.
Os três grupos ouvidos em São Paulo mostram que os chamados eleitores independentes não formam um bloco homogêneo. As experiências pessoais, as condições de trabalho e as expectativas para o futuro ajudam a moldar as escolhas. Para Nunes, essa diversidade é justamente uma das características desse eleitorado. “É como se fosse o mesmo diagnóstico e as pessoas encontrassem um remédio diferente para isso”, concluiu.



