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17 setembro 2026

América Latina e o TPI: um cenário de tensão e incerteza

O Tribunal Penal Internacional enfrenta um momento crítico na América Latina, com países como a Venezuela já tendo se retirado e a Colômbia considerando seguir o mesmo caminho. Especialistas alertam para as implicações dessa decisão.

América Latina e o TPI: um cenário de tensão e incerteza

O Tribunal Penal Internacional (TPI) sediado em Haia, na Holanda está enfrentando um período de incerteza na América Latina. A saída da Venezuela em 24 de julho e os rumores sobre uma possível desfiliação da Colômbia têm gerado preocupações sobre o futuro da justiça internacional na região.

Criado pelo Estatuto de Roma e em funcionamento desde 2002, o TPI é o primeiro tribunal penal internacional permanente. Sua missão é julgar indivíduos por crimes graves como genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crime de agressão, especialmente quando os sistemas judiciais nacionais não conseguem ou não querem agir.

O impacto da saída da Venezuela

A decisão da Venezuela de se retirar do TPI, formalizada em 24 de julho, tem sido vista como um retrocesso significativo. A Promotoria do Tribunal mantém uma investigação aberta sobre supostos crimes contra a humanidade cometidos no país. Especialistas, como a jurista venezuelana Soranib Nathali Hernández de Deffendini destacam que a retirada de um Estado não encerra automaticamente as investigações já iniciadas.

“A retirada de um Estado não elimina automaticamente a competência da Corte sobre fatos ocorridos enquanto esse Estado ainda era parte do Estatuto de Roma”, explica Hernández de Deffendini. No entanto, a decisão venezuelana tem sido criticada por advogados como Juan Ospina que a considera “equivocada” e alerta para o enfraquecimento das garantias das vítimas.

O cenário na Colômbia e os riscos regionais

Na Colômbia a situação também é preocupante. Embora não haja uma decisão oficial, meios de comunicação locais informam que o novo governo de Abelardo de la Espriella estaria considerando retirar o país do TPI. Essa possível saída poderia afetar os direitos de mais de 10 milhões de vítimas do conflito armado colombiano, privando a sociedade de um mecanismo externo de supervisão.

O advogado José Ugaz ex-presidente da Transparency International e atual presidente da Proética alerta para os riscos de um efeito dominó. “Com a ascensão ao poder de regimes autoritários ou populistas, tanto de direita quanto de esquerda, difundiu-se um discurso que, baseado em uma falsa concepção de soberania, questiona a aceitação de sistemas supranacionais de justiça”, afirma Ugaz.

A influência dos Estados Unidos

Os Estados Unidos que nunca foram membros do TPI, têm intensificado suas ações contra a corte. Durante uma reunião recente da Coalizão das Américas contra os Cartéis (A3C) realizada no Panamá o secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth incentivou os países participantes a abandonar o TPI. Além disso, Washington impôs sanções a diversos integrantes da instituição, incluindo sua presidente, a juíza japonesa Tomoko Akane.

“Do ponto de vista jurídico, é problemático que um Estado que não integra a instituição tente influenciar a relação de países terceiros com ela”, observa Hernández de Deffendini. Ugaz ressalta que um enfraquecimento do TPI teria consequências graves, beneficiando “os corruptos, os regimes autoritários, o crime organizado e todos aqueles que desprezam o bem comum como fundamento de um Estado democrático de direito”.

A América Latina tem sido historicamente uma das regiões mais comprometidas com a justiça penal internacional. No entanto, o que está ocorrendo com alguns países representa um retrocesso na consolidação universal de padrões de respeito aos direitos fundamentais e ao direito humanitário. “É prematuro afirmar que exista uma mudança regional”, avalia Ugaz, mas os riscos são evidentes.

Rafael Lima
Autor

Rafael Lima

Rafael Lima foi gestor de portfólio em asset manager brasileira e hoje escreve sobre alocação estratégica, rebalanceamento e gestão de risco para pequenos investidores.