O centro de massa da Terra não permanece fixo; ele descreve um caminho de poucos milímetros ao longo de um ano. Essa pequena dança resulta da redistribuição de água, gelo e ar entre diferentes regiões do planeta. Em 2023, pesquisadores do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, publicaram na Geophysical Journal International uma nova abordagem que reduz a margem de erro das estimativas internacionais de 2017 e 2023, que divergiam em 7 mm — quase tanto quanto o deslocamento que se tenta medir.
Método híbrido: laser, GPS e satélites em órbita baixa
Tradicionalmente, o ponto de referência era obtido a partir de reflexões laser de satélites como o LAGEOS 1 e 2, lançados em 1976 e 1992. O novo procedimento, liderado pelo geocientista Donald Argus combina essas medições com dados de GPS e informações orbitais de múltiplos satélites de baixa altitude. Além disso, a equipe incorporou o efeito da deformação da crosta causada pelo peso da água e do gelo, reconhecendo que as estações de rastreamento em solo também se deslocam ligeiramente. O resultado é uma estimativa anual de movimento que é cerca de metade do valor calculado há oito anos.
Principais motores da oscilação sazonal
O estudo identificou três fontes predominantes: os oceanos, a atmosfera e a água armazenada nos continentes. No hemisfério norte, o acúmulo máximo de neve sobre a América do Norte e a Eurásia ocorre em março, empurrando o centro de massa cerca de 3 mm rumo ao Polo Norte. Em abril, a bacia do rio Amazonas atinge seu pico de volume, armazenando aproximadamente 2 400 gigatoneladas de água, o que desloca o centro de massa 2,2 mm para a América do Sul. A monção do Sudeste Asiático chega ao seu ápice em novembro, adicionando cerca de 600 gigatoneladas embora seu efeito seja menor.
Os oceanos exercem influência decisiva entre agosto e outubro: o derretimento de gelo e as chuvas aumentam a massa nas águas do Pacífico Sul, deslocando o centro de massa nessa direção. Devido à extensão do Oceano Pacífico, variações aqui superam as registradas em outros fundos oceânicos. Por fim, a atmosfera completa o ciclo; o ar frio e denso do inverno redistribui massa para regiões como a Ásia Central e o Norte da África no solstício de dezembro, enquanto no verão o efeito se inverte para a América do Sul e a África Meridional.
Por que milímetros fazem diferença
Apesar da escala diminuta, esses deslocamentos afetam sistemas que dependem de posicionamento extremamente preciso. O centro de massa da Terra funciona como referência para navegação por satélite, mapeamento topográfico, logística marítima e agricultura de precisão. O coautor Felix Landerer enfatiza que entender melhor essas oscilações aprimora a confiabilidade de tecnologias essenciais ao cotidiano global.
Os resultados também foram corroborados pelas medições da missão GRACE-FO lançada em maio de 2018, que acompanha mensalmente alterações no campo gravitacional terrestre causadas, em grande parte, pelo movimento de água.



