A inteligência artificial está sendo cada vez mais utilizada por grupos criminosos para intensificar ataques cibernéticos. Essa tecnologia está quebrando barreiras idiomáticas e permitindo operações complexas que antes eram mais comuns em países como os Estados Unidos e a Europa. O Brasil tem se tornado um dos novos alvos preferenciais, conforme relatórios de empresas de cibersegurança.
Os criminosos estão utilizando a IA para acelerar operações técnicas, detectar vulnerabilidades em sistemas e identificar colaboradores suscetíveis a suborno. Além disso, a tecnologia é usada para criar ligações convincentes em português e recrutar parceiros locais para as operações, segundo Jeferson Propheta vice-presidente no Brasil da CrowdStrike.
Crescimento dos ataques cibernéticos no Brasil
Os ataques cibernéticos viabilizados pelo uso de IA generativa cresceram 89% entre o primeiro semestre de 2026 e o mesmo período no ano passado, conforme relatório da CrowdStrike. Esses ataques têm como alvo principalmente grandes empresas, que sofrem com sequestros de sistemas e roubo de informações privilegiadas.
Após invadir as operações digitais das empresas, as quadrilhas publicam pedidos de resgate em criptoativos na dark web uma parte da internet protegida por criptografia e acessível apenas por meio de navegadores especializados, como o Tor.
Estatísticas alarmantes
Monitoramentos de pedidos de resgate mostram que a frequência de ataques a empresas brasileiras tem aumentado neste ano. Em junho, o Brasil foi o terceiro país mais afetado por ransomware registrando 23 casos conforme a plataforma Ransomware.live da Cohesity. No acumulado de 2026, o país ficou na quinta colocação, com 123 ataques.
Em 2026, o Brasil, com 148 ataques foi o oitavo alvo preferencial, atrás dos Estados Unidos (3.772), Canadá (376), Alemanha (348), Reino Unido (297), França (187), Itália (178) e Espanha (166).
Estratégias dos cibercriminosos
Gustavo Leite vice-presidente da Cohesity para a América Latina, avalia que a emergência do Brasil, da Índia e da Tailândia como alvos recém-identificados pode ser reflexo de uma estratégia deliberada de focar em jurisdições com menor maturidade na resposta a incidentes e na coordenação com forças de segurança.
Só o grupo The Gentleman cujas operações deixam pistas em russo, afirma ter feito 15 ataques neste ano contra empresas e instituições brasileiras de diversos setores, incluindo educação, administração pública e venda de maquinários.
Casos recentes
Um dos alvos foi o Colégio Notre Dame de Campinas (SP). Os criminosos afirmam ter obtido dados de 51 alunos cadastrados na plataforma interna do colégio e indicam contato via uma plataforma de comunicação criptografada chamada Tox.
Na nota de resgate, a quadrilha afirma que só ela pode restabelecer o acesso da escola aos dados. “As autoridades, forças policiais e empresas de recuperação de dados NÃO vão ajudar você. Eles apenas farão você perder tempo, levarão seu dinheiro e o impedirão de recuperar seus arquivos”, dizem os criminosos.
Especialistas recomendam o não pagamento dos resgates. No Brasil, por exigência regulatória, os incidentes cibernéticos devem ser informados à ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) e a todas as vítimas do vazamento de dados.
O regulamento da agência exige comunicação individualizada em linguagem simples, caso seja possível identificar as vítimas do vazamento. “Os pedidos de resgate podem também ser blefes e, por isso, é necessário ter acompanhamento profissional”, diz Propheta da CrowdStrike.
Em 12 de março quando expirou o prazo de um pedido de resgate, o grupo Dragonforce especializado em ransomware, publicou na dark web 1,52 TB de arquivos que atribui à FGV (Fundação Getulio Vargas). A estrutura do material supostamente associado à instituição indica acesso a um servidor interno com pastas de departamentos e diretórios pessoais de funcionários.
Na ocasião, a FGV disse que não havia informação nova ou relevante sobre a alegação de captura e vazamento de dados ou conteúdo. Segundo a instituição, o material divulgado em uma rede clandestina da dark web e analisado até agora inclui formulários apócrifos e em branco.



