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4 outubro 2026

Eleição presidencial não resolve economia, corrupção e contas públicas

Mesmo após a eleição, estrutura institucional, finanças e corrupção definem o futuro do país.

Eleição presidencial não resolve economia, corrupção e contas públicas

A cada ciclo eleitoral o eleitor brasileiro sente o peso de um novo voto como promessa de mudança: salários mais altos, crédito mais barato e serviços públicos de qualidade. Essa esperança nasce da realidade de quem lida diariamente com renda limitada, juros elevados e um Estado que parece pouco responsivo.

No entanto, o otimismo esbarra na complexa divisão de poderes. Enquanto a presidência recebe a maior parte da atenção, decisões críticas dependem também do Congresso do Judiciário e de instituições reguladoras que, por vezes, se mostram resistentes a mudanças rápidas.

Concentração de expectativas no presidente

Colocar toda a carga de solução nas mãos de um único mandatário cria um cenário irrealista. O chefe do Executivo pode propor reformas, mas a aprovação de leis, a alocação de recursos e o controle dos gastos exigem negociação com partidos legislativos e respeito a limites constitucionais. Pesquisadores como Daron Acemoglu e James Robinson já mostraram que instituições sólidas são o alicerce da prosperidade; sem elas, até mesmo políticas bem-intencionadas podem fracassar.

Além disso, o modelo de presidencialismo de coalizão adotado no Brasil favorece acordos de bastidores nos quais poucos partidos detêm o poder de barganha, enquanto a maioria dos eleitores permanece alheia a quem realmente apoiou ou impediu uma medida. Essa opacidade reduz a capacidade de cobrança pós-eleição e perpetua ciclos de inércia.

Finanças públicas: dívida, juros e reformas necessárias

Os relatórios do Tesouro Nacional revelam que a dívida pública brasileira ultrapassa níveis que elevam o custo dos juros no orçamento, desviando recursos que poderiam ser investidos em saúde, educação e infraestrutura. O FMI aponta que a combinação de rigidez fiscal e dívida elevada é um obstáculo direto ao investimento de longo prazo.

Reforma tributária e gastos sociais

Reduzir gastos com educação pode aliviar a conta do governo a curto prazo, porém compromete o crescimento futuro, pois uma população menos qualificada produz menos inovação. A OCDE indica que a melhoria da produtividade depende de infraestrutura, qualificação profissional e de um ambiente favorável à produção. Por isso, a revisão de benefícios fiscais o combate ao desperdício e a modernização da arrecadação são passos indispensáveis, ainda que gerem resistência de grupos que temem perder privilégios imediatos.

Corrupção, fiscalização permanente e responsabilidade do Legislativo

Escândalos de corrupção não se limitam ao dinheiro subtraído; eles corroem a confiança nas instituições e desencorajam investimentos. Um estudo publicado no The Quarterly Journal of Economics demonstra que a corrupção reduz o investimento e o crescimento econômico de forma mais profunda do que o montante desviado, criando um efeito multiplicador negativo.

Auditorias e transparência como freios

Programas de auditoria da Controladoria-Geral da União e pesquisas de Eric Avis, Cláudio Ferraz e Frederico Finan indicam que municípios fiscalizados registram até 8% menos corrupção futura, evidenciando que a simples perspectiva de ser monitorado altera o comportamento dos gestores. Contudo, a efetividade desses mecanismos depende da vontade política e da divulgação clara de irregularidades, tarefa que costuma ficar a cargo da imprensa local – muitas vezes limitada por vínculos partidários – e de ferramentas como o Portal da Transparência.

O Congresso, responsável por aprovar leis e o orçamento, costuma receber menos atenção dos eleitores que o presidente, mas suas decisões moldam o ambiente econômico. Quando as lideranças partidárias fecham acordos sem transparência, a responsabilidade fica diluída e a cobrança popular perde força, dificultando a implementação de reformas estruturais.

Em síntese, o voto nas urnas é apenas o ponto de partida. A transformação efetiva do país requer acordos institucionais controle rigoroso dos recursos públicos e um eleitorado que continue a demandar resultados após a promulgação das leis.

Bruno Costa
Autor

Bruno Costa