Em 1966, enquanto ainda se utilizavam terminais vindos de um IBM 7090, Joseph Weizenbaum pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), escreveu um código de apenas 411 linhas que simulava uma sessão de psicoterapia. Batizado de ELIZA o software reagia a palavras-chave e devolvia perguntas como “Por que você se sente triste?”. A escolha do nome foi uma homenagem à personagem Eliza Doolittle de Bernard Shaw que aprende a falar como dama sem mudar sua essência.
Funcionamento básico e o famoso “Hmmm”
O coração do programa era o script DOCTOR que insistia em manter a conversa fluindo. Entre as 411 linhas de código, a linha 404 continha a expressão “Hmmm”, um pensamento-vocal que servia para ganhar tempo e conferir à máquina um ar mais humano. Essa sutileza – chamada de subtle anthropomorphisation por quem reconstruiu o código no livro Inventing ELIZA – demonstra que, já nos primórdios, o autor já se preocupava em fazer a interface parecer menos mecânica.
Repercussões imediatas e extensões acadêmicas
O teste com a secretária que, após alguns minutos de diálogo, pediu ao criador que saísse da sala, tornou-se lenda. No artigo publicado na Communications of the ACM (vol. 9, 1966), Weizenbaum relatou que alguns usuários acreditavam estar conversando com um ser humano. Esse fenômeno foi rotulado como efeito ELIZA. Poucos anos depois, o psiquiatra Kenneth Colby da Universidade de Stanford apresentou PARRY programa que simulava um paciente paranoide. Em 1975, o astrônomo Carl Sagan chegou a imaginar cabines públicas onde as pessoas pagariam para conversar com um terapeuta de computador.
Crítica e legado de Weizenbaum
Nasceu em Berlim em 8 janeiro 1923, Weizenbaum fugiu da Alemanha nazista ainda adolescente e, depois de décadas de pesquisa, publicou em 1976 Computer Power and Human Reason. No livro, ele descreveu o episódio da secretária como um aviso: “Exposições extremamente curtas a um programa simples podem induzir delírio em pessoas normais”. Até sua morte, em 5 março 2008, manteve a posição de que decisões que exigem julgamento humano não deveriam ser delegadas a máquinas.
Do laboratório ao cotidiano global
Embora o código original fosse limitado a linhas de comando, a ideia se multiplicou. Versões foram portadas para o Emacs para linguagens como BBN-Lisp e, posteriormente, para milhares de computadores domésticos nos anos 80. Hoje, modelos de inteligência artificial treinados em grandes corpora de texto dialogam semanalmente com mais de 1 bilhão de usuários apenas no ChatGPT. O efeito ELIZA persiste: muitas pessoas ainda recorrem a chatbots como confidentes, terapeutas virtuais ou parceiros românticos, levantando questões sobre dependência emocional, sobretudo entre jovens.
O que mudou foi a escala, não a natureza humana de atribuir sentimentos a máquinas. A mesma curiosidade que fez a secretária buscar privacidade em 1966 se repete diariamente com centenas de milhões de interações ao redor do globo. O legado de ELIZA permanece como um lembrete de que, embora a tecnologia evolua, a tendência de tratar algoritmos como ouvintes empáticos ainda exige reflexão crítica.



