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18 setembro 2026

Estudo do Instituto Esfera aponta divergência nas políticas do BC

O Comitê de Política Monetária recortou a taxa básica pela quinta vez consecutiva e discute se as expectativas de inflação vêm do mercado financeiro ou da produção real.

Estudo do Instituto Esfera aponta divergência nas políticas do BC

Na quarta-feira, 16, o Comitê de Política Monetária (Copom) se reuniu para definir os rumos da política monetária brasileira. A decisão mais marcante foi a redução da taxa Selic para 13,75% ao ano, representando o quinto corte sucessivo. Essa medida, anunciada em meio a um cenário de inflação ainda acima da meta, evidencia a estratégia de alívio ao crédito, mas também levanta dúvidas sobre a sustentabilidade da trajetória de juros baixos.

O peso dos relatórios Focus e Firmus nas decisões do Copom

Durante a sessão, o Copom analisou o relatório Focus que reúne projeções de agentes do mercado financeiro sobre preços, atividade econômica, câmbio e a própria Selic. Recentemente, em 2025, o Banco Central incorporou ao seu arsenal o relatório Firmus cuja missão é captar a percepção de empresas não financeiras acerca das condições de negócios e das variáveis macroeconômicas que influenciam suas decisões. Enquanto o Focus representa a visão do setor financeiro, o Firmus traz ao debate a expectativa de inflação originada na produção real.

Divergências apontadas pelo estudo do Instituto Esfera

O Instituto Esfera divulgou a pesquisa “Juros e Expectativas de Inflação no Brasil: Uma Análise Crítica”, que compara a base de decisão do Banco Central com as expectativas do mercado produtivo. Segundo o diretor acadêmico Fernando Meneguin“a governança das expectativas de inflação não determina, por si só, o nível dos juros no Brasil, pois isso depende, em primeira ordem, da trajetória fiscal, da poupança doméstica e das obstruções nos canais de crédito”. O estudo alerta que a maior parte das deliberações do Copom ainda se apoia no Focus, relegando o Firmus a um papel marginal devido à sua curta história e amostra limitada.

Limitações do Firmus

Entre os pontos críticos citados, destaca-se que o Firmus possui amostra reduzida recrutada por adesão voluntária, com horizonte de projeção de até dois ou três anos e sem presença regular nas atas do Copom. Essa fragilidade impede que as expectativas de inflação do setor produtivo tenham peso comparável ao do mercado financeiro, potencializando um viés nas decisões de política monetária.

Desafios para a eficácia da política de juros

O estudo do Instituto Esfera evidencia duas vulnerabilidades principais. Primeiro, elevar a taxa Selic para conter a inflação pode ser contraproducente se as contas públicas estiverem desequilibradas; o aumento dos juros pode agravar o endividamento do governo e gerar um efeito inflacionário reverso. Segundo, canais de transmissão da política monetária são frequentemente obstruídos por subsídios e auxílios nacionais, tornando necessário manter juros altos por períodos prolongados para alcançar efeito desinflacionário.

Soluções apontadas pelos autores

Como resposta, o texto propõe fortalecer o Firmus: ampliar a adesão de empresas, segmentar as respostas por setor, porte e região e inserir esses dados de forma sistemática nos relatórios do Copom. Outra iniciativa sugerida é a criação de um bloco regular de “expectativas e credibilidade” no Relatório de Política Monetária e nas atas, apresentando uma métrica de ancoragem de longo prazo que compare publicamente as informações do Firmus com as do Focus. Essas ações teriam custo baixo e potencial de melhorar a credibilidade institucional do Banco Central.

Perspectivas para a condução da política monetária

Com a Selic já em 13,75% ao ano, a expectativa é que o Copom continue balanceando a necessidade de conter a inflação com o risco de sobrecarregar a dívida pública. A integração mais robusta do Firmus pode proporcionar ao Banco Central uma visão mais completa das pressões inflacionárias, reduzindo a dependência exclusiva de indicadores financeiros. Se adotadas, as recomendações do Instituto Esfera podem aprimorar a governança das expectativas e tornar a política monetária brasileira mais resiliente diante de choques fiscais e estruturais.

Beatriz Almeida