As investigações da Polícia Federal sobre a operação Sem Refino 2 trouxeram à tona mensagens trocadas entre o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro e o empresário Ricardo Magro dono do Grupo Refit. Essas conversas, analisadas pelo ministro Alexandre de Moraes do Supremo Tribunal Federal sugerem uma relação de proximidade entre os dois.
Na quinta-feira, 3 de setembro de 2026, Moraes retirou o sigilo da investigação, permitindo que os documentos fossem acessados. Entre os materiais, está um arquivo de 26 MB que reúne indícios de que Castro atuou diretamente para beneficiar os interesses do Grupo Refit.
Mensagens e a Viagem a Nova York
Uma das conversas analisadas ocorreu após uma viagem de Castro a Nova York. Segundo a PF, Magro organizou o evento que o então governador participou e atuou como uma espécie de guia durante a estadia. Os investigadores afirmam que a viagem foi patrocinada pela Refit e que Castro esteve à mesa com o empresário, além de secretários estaduais que também se reuniram com Magro na ocasião.
Depois da viagem, ao se comunicar com o empresário, Castro escreveu: “Aqui você tem um amigo. Saiba disso”. Para a PF, o conteúdo da mensagem contrasta com a versão que o ex-governador apresentou publicamente sobre sua relação com o dono da refinaria. Castro havia dito, em entrevista ao jornal Valor Econômico, que participou do evento em Nova York, mas negou envolvimento com Ricardo Magro.
Conversas com Advogado da Refit
Em outra troca de mensagens, desta vez com Marcos Joaquim Gonçalves Alves advogado que a PF descreve como atuante direto nos interesses da Refit, o então governador se dispôs a viabilizar uma reunião para tratar da regularização fiscal da empresa. Castro respondeu: “Eu toco por aqui.”
Para os investigadores, a frase indica uma atuação pessoal do governador em assunto de interesse direto do grupo empresarial. A PF afirma que Marcos Joaquim tratou com Castro, em diferentes ocasiões, de demandas administrativas da Refit no estado e recebeu do então governador orientações sobre protocolos, reuniões e tramitação de processos.
A investigação também identificou mensagens em que Castro acompanhava pessoalmente pedidos da Refit a órgãos estaduais. Depois que uma petição da empresa foi protocolada na Casa Civil, Marcos Joaquim procurou repetidas vezes o governador para saber do andamento. Castro respondeu que havia cobrado providências sobre o pedido.
Para a PF, o episódio sugere tratamento diferenciado a uma empresa privada, que teria conseguido levar seus pleitos diretamente ao governador, fora dos canais administrativos ordinários.
Ambiente Institucional Favorável
Ao reunir os diferentes diálogos, a PF concluiu que os contatos entre Castro e representantes da Refit não eram apenas institucionais. Os investigadores apontam que os dados extraídos do celular do ex-governador indicam:
- acompanhamento pessoal de pedidos administrativos da Refit;
- facilitação de agendas com integrantes do governo estadual;
- monitoramento de demandas estratégicas da empresa; e
- integração de Castro a uma rede de autoridades e agentes privados ligados aos interesses do grupo.
Na representação reproduzida na decisão de Moraes, a PF afirma que Castro criou, à frente do governo fluminense, um “ambiente institucional favorável” à atuação do Grupo Refit no Estado do Rio de Janeiro.
A investigação apura ainda se agentes públicos atuaram para beneficiar a Refit em decisões administrativas, tributárias e ambientais. Um dos episódios citados pela PF é a renovação, em maio de 2024, da Licença de Operação e Recuperação da refinaria pela Comissão Estadual de Controle Ambiental. A licença foi aprovada por maioria, apesar dos votos contrários de representantes do Ibama e da Uerj, que apontaram contaminação do solo e das águas subterrâneas e o descumprimento de condicionantes anteriores.
Defesa de Castro
Em nota divulgada, a defesa do ex-governador negou as imputações. “A defesa do ex-governador Cláudio Castro nega qualquer participação em esquema de lavagem de dinheiro, recebimento de vantagem indevida ou favorecimento a terceiros” afirma o texto.
Sobre a viagem a Nova York, a defesa declara que ela “foi oficial, paga pelo Governo do Estado, com registros disponíveis no Portal da Transparência” e nega que tenha sido custeada pela Refit. A nota acrescenta que “os contatos com representantes da Refit foram institucionais e não resultaram em qualquer benefício” e que, durante a gestão de Castro, “o Estado adotou medidas para cobrar valores devidos pela empresa.”
“Cláudio Castro reafirma que não praticou qualquer ato ilícito”, finaliza a nota.
A defesa informou ainda que pediu ao ministro Alexandre de Moraes que Castro seja ouvido pela PF para esclarecer os pontos da investigação e apresentar documentação comprobatória. O pedido aguarda decisão.



