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24 setembro 2026

Floração recorde no Atacama impulsionada pelo El Niño

Chuvas históricas impulsionam um espetáculo de cores no Deserto do Atacama, revelando milhares de espécies e atraindo turistas, mas também exigindo cuidados.

Floração recorde no Atacama impulsionada pelo El Niño

O Deserto do Atacama conhecido como um dos mais secos do planeta, foi conquistado por uma explosão de cores graças a um evento climático incomum. Durante o inverno de 2026, as chuvas ultrapassaram a marca de 180 milímetros em pontos isolados, trazendo à superfície sementes que estavam adormecidas sob a areia por décadas. O resultado foi a tão esperada floração do deserto que cobre extensas áreas com tons violeta, branco e amarelo, transformando a paisagem árida em um verdadeiro tapete natural.

Além da beleza visual, o fenômeno desperta interesse científico e turístico. Milhares de visitantes começaram a chegar à região, parando ao longo da estrada para registrar o espetáculo e, ao mesmo tempo, colocando em teste a capacidade de manejo da área protegida. Especialistas alertam que, embora a curiosidade seja compreensível, é fundamental respeitar as rotas demarcadas e evitar levar animais de estimação para não comprometer a delicada fauna local.

Chuva recorde ligada ao El Niño

O intenso período de precipitação tem origem no El Niño um fenômeno natural que eleva a temperatura da superfície do oceano Pacífico equatorial, gerando alterações nos ventos e nas chuvas ao redor do globo. Entre 16 e 22 de julho a mistura de calor excessivo nas águas perto da costa do Peru e a forte evaporação provocaram chuvas torrenciais no norte do Chile. As consequências foram trágicas: 13 mortos e cerca de 4 000 casas destruídas ou seriamente danificadas, segundo as autoridades locais.

Mesmo diante da tragédia, o próprio César Pizarro chefe da seção de conservação da biodiversidade da Corporação Nacional Florestal do Chile (Conaf) no Atacama, destacou o lado positivo: “Embora haja uma grande preocupação com os impactos que o El Niño está provocando em muitos lugares, esse fenômeno também gera vida”. A água, ao penetrar mais fundo na areia, reabasteceu os aquíferos subterrâneos, permitindo que a vegetação emergisse em escala inédita.

Florescimento sem precedentes

Segundo a Conaf, o fenômeno conhecido como deserto florido deverá atingir o pico em outubro, cobrindo até 15 mil hectares – um dos maiores registros da história recente. Cerca de 200 espécies de plantas, entre elas os delicados suspiros-brancos e as patas-de-guanaco respondem aoidade das chuvas, tingindo o solo de violeta intenso. Em alguns trechos, a coloração parece um manto de estrelas sobre o chão rachado, enquanto em outros surgem delicados botões brancos que contrastam com o vermelho do pôr-do-sol.

“Para o nosso país, o deserto florido é motivo de orgulho, é parte do nosso patrimônio”, afirmou César Pizarro, observando brotos amarelos que despontam entre as dunas. Ele ressaltou que, embora outros desertos também floresçam após precipitações, a combinação de extensão territorial e diversidade de espécies no Atacama é única no mundo.

Ecosistema e visitação responsável

O renascimento vegetal atrai não apenas turistas, mas também uma variedade de insetos, caracóis, aves, répteis e mamíferos que dependem das flores para alimento e abrigo. As abelhas desempenham o papel crucial de polinização enquanto os besouros se alimentam dos restos das plantas e, ao defecar, enriquecem o solo com nitrogênio e fósforo, preparando-o para a próxima temporada de chuvas. Essa teia de interdependência ressuscita um ecossistema que, por anos, permanecia praticamente inativo.

Com a chegada de milhares de visitantes, autoridades e especialistas reforçam a necessidade de comportamento responsável. O público deve utilizar apenas as trilhas sinalizadas evitar pisar nas plantas e não levar cães ou gatos ao interior da reserva, a fim de impedir a transmissão de doenças à fauna nativa. A Conaf acompanha de perto o fluxo de turistas, promovendo sinalização educativa e oferecendo orientações para que a experiência seja segura tanto para os humanos quanto para os habitantes do deserto.

O espetáculo natural promete alcançar seu auge em outubro, quando as cores deverão se intensificar ainda mais. Enquanto isso, a combinação de chuvas recordes, biodiversidade extraordinária e o interesse crescente do público transformam o Deserto do Atacama em um símbolo de resiliência e de como eventos climáticos extremos podem, paradoxalmente, gerar vida.

Rafael Oliveira