A partir de 12 de setembro, o governo da Turquia desencadeou a operação conhecida como “Minha Família está Segura” que combinou censura digital, invasões de sedes e detenções em massa de militantes LGBTQ+. Em menos de uma semana, a medida já envolve quase 200 pessoas que tiveram suas liberdades cerceadas, e, segundo a ONG Kaos GL, pelo menos 82 foram levadas a prisões.
Bloqueios, invasões e o avanço da operação
O primeiro passo da ofensiva foi o bloqueio de acesso a redes sociais e portais de notícias ligados a grupos LGBT+, interrompendo a comunicação de dezenas de organizações. Em seguida, as forças policiais invadiram no mínimo sete organizações LGBTQ+ e duas entidades de apoio a pessoas vivendo com HIV além de desalojar familiares de ativistas em Istambul, Ancara e Izmir.
Essas ações provocaram manifestações espontâneas nos três grandes centros urbanos no dia 15 de setembro. A resposta das autoridades foi violenta: 126 pessoas foram detidas durante os protestos, de acordo com relatos da agência Reuters. Testemunhos coletados pela Kaos GL apontam que muitos detidos foram submetidos a revistas íntimas humilhantes, agressões físicas, corte forçado de cabelo e negação de medicamentos, roupas limpas e água potável.
Depoimentos sobre tortura e condições carcerárias
Em entrevista ao g1, o jornalista e ativista Yildiz Tar membro da Kaos GL, descreveu os abusos vividos pelos colegas: “Meus amigos e colegas foram maltratados e torturados”. Ele detalhou que alguns detidos foram mantidos em solitária e ficaram cinco dias sem água. “Eles estão em condições muito difíceis nas prisões”, afirmou, acrescentando que entre os presos há quem tenha sido privado de higiene básica e de medicamentos de uso contínuo.
Outra voz da comunidade, a ativista Janset Kalan enviou carta a partir de uma prisão turca relatando a falta de roupas limpas, banho e itens de higiene. “Estou privada de roupas limpas, banho e produtos de higiene”, escreveu, evidenciando a brutalidade das condições de encarceramento.
Mesmo diante desses relatos, Yildiz Tar ressaltou a resiliência do movimento: “Como movimento, nós vamos continuar. A comunidade precisa de nós. Nós, pessoas LGBT, precisamos viver nossas vidas com dignidade e respeito”.
Justificativas do governo e reação internacional
Documentos oficiais obtidos pela Reuters revelam que o governo justifica as medidas como uma defesa da “instituição da família”, dos “interesses das crianças” e da “moral pública”. Os ativistas são acusados de obscenidade, prostituição e violação da Lei de Associações. Não há legislação que criminalize diretamente a orientação sexual ou identidade de gênero, mas as autoridades ainda alegam financiamento estrangeiro, citando a União Europeia e a ONU como fontes de apoio às ONGs.
O Comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa, Michael O’Flaherty expressou profunda preocupação, afirmando que valores familiares ou a suposta proteção de crianças não podem servir de pretexto para restringir direitos humanos. Ele apelou pela libertação imediata de qualquer pessoa detida por defender direitos civis.
Yildiz Tar contextualiza a atual onda de repressão dentro de um processo que, segundo ele, começou a se intensificar a partir de 2015, quando a polícia atacou a Parada do Orgulho de Istambul. O presidente Tayyip Erdogan tem endurecido a retórica contra minorias sexuais, culminando na proibição da parada este ano, junto a outros eventos culturais.
Para o ativista, a perseguição não reflete o sentimento da população: “Não é sobre a sociedade, é sobre as políticas do governo”. Ele ainda argumenta que a moralização serve de cortina de fumaça para ocultar o agravamento da pobreza no país. Apesar da frustração, Tar conclui: “Estou frustrado, mas não estou sem esperança”.



