A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu um passo significativo ao aprovar o primeiro medicamento genérico à base de semaglutida no Brasil. Essa decisão, publicada no Diário Oficial da União de segunda-feira (17), pode redefinir o mercado de tratamentos para diabetes tipo 2 e obesidade aumentando a concorrência e reduzindo os custos para os pacientes.
A aprovação abrange dois produtos: um genérico da EMS registrado como o primeiro da categoria no país, e um similar da Germed Farmacêutica ambos parte do grupo NC Farma. Esses medicamentos utilizam a concentração de 1,34 mg/ml equivalente ao Ozempic da Novo Nordisk mas ainda abaixo da concentração máxima disponível no Wegovy.
Impacto no mercado e expectativas
Analistas do Goldman Sachs como Gustavo Miele e Danilo Valigura destacam que essa aprovação fortalece a posição da EMS no mercado brasileiro de semaglutida. Os genéricos oferecem vantagens regulatórias significativas, como a possibilidade de substituição pelo farmacêutico sem necessidade de nova prescrição médica, desde que não haja restrição expressa do médico.
Além disso, a legislação brasileira exige que os genéricos sejam comercializados com um desconto mínimo de 35% em relação ao produto de referência. Embora os produtos alternativos já sejam vendidos com descontos significativos frente ao Ozempic essa estrutura regulatória pode favorecer uma maior adoção do produto da EMS.
O Goldman Sachs projeta uma forte expansão do mercado de semaglutida no Brasil, estimando vendas de cerca de 18 milhões de caixas em 2027. A entrada de genéricos pode demandar menos investimentos em marketing e construção de marca, abrindo espaço para preços ainda mais competitivos e ampliando o acesso ao tratamento.
Oportunidades para outras empresas
A Hypera também é citada como uma das empresas bem posicionadas para capturar oportunidades nesse mercado, graças à sua escala operacional e capacidade comercial. No entanto, o Goldman Sachs trata essa tese como uma opcionalidade, sem incorporar contribuições expressivas do segmento em suas projeções principais.
O banco estima que a entrada da Hypera nesse mercado poderia elevar em aproximadamente 5% sua receita bruta projetada para 2027. No entanto, os analistas não esperam impacto material no Ebitda da empresa no curto prazo, já que os primeiros anos exigirão investimentos relevantes em visitas médicas, marketing e desenvolvimento de marca, pressionando as margens iniciais dos produtos.
As margens do negócio de GLP-1 da Hypera tendem a ficar abaixo da média consolidada da companhia nos primeiros anos de operação, convergindo gradualmente para os níveis observados nos demais segmentos da empresa.
Crescimento do mercado e perspectivas futuras
O mercado brasileiro de semaglutida, que inclui OzempicWegovyRybelsus e versões similares, deve crescer de R$ 5,7 bilhões em 2026 para R$ 10,7 bilhões em 2029. No período, o volume de unidades comercializadas deve saltar de cerca de 6 milhões para 25,6 milhões refletindo um aumento significativo da penetração dos tratamentos entre pacientes com diabetes tipo 2 e obesidade.
A perda da exclusividade da semaglutida no Brasil, ocorrida em março deste ano, abriu espaço para uma rápida intensificação da concorrência. Até o momento, seis versões similares já receberam aprovação da Anvisa incluindo o Ozivy da EMS e o Owozy da Sandoz aprovado em julho em parceria com a Adalvo.
Apesar da chegada dos genéricos, o Goldman Sachs vê a Novo Nordisk mantendo uma posição dominante no mercado brasileiro. A tese é sustentada pela força das marcas OzempicWegovy e Rybelsus além da estratégia da farmacêutica de competir também no segmento de menor preço por meio dos produtos Extensior e Povitzra.
O banco estima que a Novo Nordisk preserve entre 70% e 90% de participação do mercado de semaglutida em 2026, percentual que pode recuar para algo entre 40% e 60% até 2029, conforme a concorrência aumenta. Ainda assim, a companhia deve continuar capturando uma parcela relevante das receitas graças à fidelidade à marca, capacidade produtiva e portfólio mais amplo de dosagens.
A Sandoz também pode se beneficiar significativamente da abertura desse mercado. A farmacêutica, que recebeu aprovação da Anvisa para comercializar o Owozy no fim de julho, deve iniciar as vendas ainda este ano. Mesmo entrando em um ambiente competitivo, a instituição financeira acredita que a companhia está bem posicionada para conquistar participação relevante graças à sua estratégia de múltiplos fornecedores e à presença consolidada no mercado brasileiro.
Nas estimativas do banco, a Sandoz poderá alcançar entre 2% e 6% de participação do mercado de semaglutida em 2027 e entre 6% e 10% em 2029. Isso representaria uma oportunidade de vendas entre US$ 50 milhões e US$ 125 milhões por ano entre 2027 e 2029, contribuindo para que a divisão de genéricos da companhia registre crescimento no topo da faixa histórica de expansão.
O Goldman Sachs ainda aponta potenciais vetores extras de crescimento para o mercado brasileiro. Um deles seria uma eventual incorporação da semaglutida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) possibilidade que ganha relevância à medida que os preços recuam. Atualmente, os medicamentos da classe GLP-1 não são oferecidos pela rede pública para diabetes ou obesidade.
Outro fator seria a migração de consumidores que hoje recorrem ao mercado informal, incluindo medicamentos manipulados e produtos importados de forma paralela. Segundo o relatório, versões mais baratas e regulamentadas podem reduzir gradualmente o espaço dessas alternativas, ampliando ainda mais o mercado formal de semaglutida no país.



