Na estreia de Casa do Norte o Grupo Clariô de Teatro leva ao Teatro Anchieta e ao Sesc Consolação uma montagem que nasce da simples ideia de Rager Luan: um cenário portátil para as viagens da trupe. A pesquisa do cenógrafo, feita nas lojas populares do Brás, acabou por redirecionar o projeto para uma alegoria colorida inspirada nos estabelecimentos criados por imigrantes nordestinos, locais que vendem comida típica, bebidas e se convertem em pontos de encontro da comunidade.
Um cenário que pulsa memória e identidade
O palco se transforma em uma mercearia cheia de utensílios, prateleiras, uma jukebox, o retrato do cantor Reginaldo Rossi e até uma caixa de correio comunitária. À noite, esse espaço se converte no “inferninho” chamado Fecha Nunca. Cada objeto foi escolhido para remeter às lojas que abastecem a zona sul de São Paulo, trazendo à cena a atmosfera dos mercados que sustentam a vida cotidiana dos imigrantes do Nordeste.
Enredo e estratégia cômica como ato político
A trama gira em torno do desaparecimento misterioso da caixa de correspondências, desencadeando suspeitas entre os frequentadores da Casa do Norte. Enquanto investigam, memórias e afetos emergem, revelando os vínculos que mantêm a comunidade unida. Para os integrantes, a comédia não é apenas entretenimento; segundo o ator Washington Gabriel, “Trabalhar com comédia, além de libertador, é um ato político. Ter o direito de rir é algo que não é tão fácil assim“. O exagero e o tom exacerbado são, como explica Naruna Costa, “um jeito de gritarmos todas as demandas, todas as carências, mas também todas as abundâncias que tem um coletivo periférico“.
Um coletivo que resiste à especulação
Fundado em 2005 o Clariô chegou ao seu 20º aniversário com a primeira comédia apresentada fora da sede, em Taboão da Serra. Após uma campanha intensa para salvar o Espaço Clariô da especulação imobiliária, a trupe decidiu usar o humor como ferramenta de preservação. A atriz Martinha Soares ressalta: “Falamos dos imigrantes, mas também de territórios, de pertencimento. O nosso espaço está ameaçado, assim como muitos“. O espaço, além de palco, funciona como centro comunitário – recebe saraus, aulas de capoeira e ações de solidariedade durante enchentes.
Referências ao cenário cultural periférico
Durante a peça, são citados o desaparecimento dos teatros Ventoforte e Contêiner Munguzá e a luta da Brava Companhia para manter seu espaço na Vila Prel, zona sul de São Paulo. Essa menção reforça a reflexão sobre as ameaças que recaiem sobre projetos culturais independentes. Obras anteriores como “Hospital da Gente” e “Severina – Da Morte à Vida” já tinham conquistado prêmios como o Aplauso Brasil, o APCA e o Shell, e agora ajudam a conduzir novos públicos ao espaço de Taboão.
Reconhecimento e futuro do coletivo
Em agosto, Naruna Costa recebeu o Kikito de atriz coadjuvante no Festival de Gramado por sua atuação em “Pele de Rinoceronte”, dedicando o prêmio como “vingança” pelas mulheres assassinadas no Brasil e homenageando atrizes negras como Ruth de Souza e Léa Garcia. Essa conquista reforça o compromisso do Clariô em representar periferias negras sem estereotipar, mas exaltando a identidade. A trupe mantém um encontro semanal nas terças-feiras à noite no Espaço Clariô, onde definem os próximos passos artísticos, equilibrando trabalhos em novelas, séries e a sobrevivência do coletivo.



