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24 setembro 2026

Pesquisa revela que 49% dos cuidadores ainda aplicam palmadas

A pesquisa do Unicef aponta que a crença na palmada como disciplina ultrapassa a lei e se alimenta de sobrecarga e medo da violência externa.

Pesquisa revela que 49% dos cuidadores ainda aplicam palmadas

Na manhã de quinta-feira, 24 de setembro de 2026, o Unicef divulgou o relatório intitulado “É só uma palmada?” que investiga a persistência do castigo corporal na primeira infância brasileira. O estudo, de abordagem qualitativa, reuniu 214 participantes – mães, pais, cuidadores, lideranças comunitárias e profissionais da rede de proteção – nas cidades do Rio de Janeiro, Manaus e Recife entre 2024 e 2026. A pesquisa não pretende quantificar a prática em todo o país, mas traz luz sobre as crenças, normas sociais e dificuldades que mantêm a disciplina física viva nos lares.

Contexto legislativo e percepção popular

Desde 2014, a Lei Menino Bernardo (Lei 13.010/2014) assegura a crianças e adolescentes o direito de serem educados sem uso de castigo físico. Contudo, o levantamento revela que a maioria dos entrevistados ainda distingue a palmada da “violência real”. Quando questionados sobre a adequação da prática, 91% dos cuidadores afirmaram que o diálogo seria a melhor ferramenta, mas 49% admitiram já ter recorrido a tapas, 62% a gritos e 27% a objetos como “cinto” ou “vara”. Esse descompasso indica que, para grande parte da população, a linha que separa “leve” de “grave” permanece nebulosa.

Motivações que sustentam o uso da palmada

O estudo aponta três vetores principais que explicam por que pais e mães ainda recorrem ao castigo físico. Primeiro, a sobrecarga de cuidados recai quase que exclusivamente sobre as mulheres, gerando cansaço e reatividade diante de birras ou desobediência. Segundo, a dinâmica de segurança nas áreas estudadas, marcadas por violência armada, faz com que a disciplina rígida seja percebida como proteção contra o crime organizado. Por fim, a cultura de silêncio – reforçada por vizinhos, amigos e parentes que evitam intervir sob a lógica de que “cada família cria seus filhos ao seu modo” – deixa o cuidador isolado nos momentos em que mais precisaria de apoio.

Exemplos regionais de linguagem

Durante as entrevistas, surgiram termos regionais que suavizam a percepção de agressão: no Rio de Janeiro, palavras como “chinelada”, “coça” ou “beliscão”; em Recife, “cacete”, “sandália” e “puxão”; já em Manaus, “peia”, “chinelo” e “surra”. Essa eufemização contribui para que o castigo corporal seja enquadrado como “correção” e não como violência.

Desafios para a mudança de prática

A especialista em proteção à infância do Unicef no Brasil, Luiza Teixeira ressalta que o problema não está apenas na escolha individual, mas na normalização da disciplina física como ferramenta legítima. Ela afirma: “nosso estudo mostrou que o castigo corporal persiste em nossa cultura não apenas pela escolha de um pai, mãe ou cuidador, mas porque muitos ainda acreditam que bater é uma forma legítima de educar”. O estudo também detectou arrependimento entre mães mais jovens, que desejam substituir a palmada por diálogos, porém carecem de repertório prático para lidar com situações de crise.

Além da lacuna de competências parentais, a pesquisa denuncia falhas na rede de proteção pública. Conselhos Tutelares, postos de saúde e escolas tendem a agir de forma reativa, intervindo apenas após a ocorrência de agressão. Não há mecanismos preventivos consistentes que orientem famílias antes que o estresse se traduza em violência. A falta de conhecimento aprofundado da Lei Menino Bernardo também alimenta a resistência, sendo muitas vezes interpretada como intrusão estatal na autonomia familiar.

Propostas apontadas pelo Unicef

Para romper esse ciclo, o relatório sugere quatro linhas de ação: (i) redirecionar serviços de assistência para apoio diário e preventivo; (ii) fortalecer o programa “1ª Infância” do SUAS com visitas domiciliares capacitadas; (iii) definir claramente a responsabilidade compartilhada entre saúde, educação, assistência social e Conselhos Tutelares; e (iv) treinar profissionais de referência – professores, agentes de saúde e assistentes sociais – para que sirvam como interlocutores confiáveis nas comunidades. A especialista ainda destaca a importância de envolver mais homens no cuidado diário, reduzindo a sobrecarga materna que costuma desencadear respostas violentas.

Em síntese, a pesquisa do Unicef revela que a percepção de “palmada inofensiva” ainda é um obstáculo central ao cumprimento da lei. Enquanto a sociedade civil mantém a ideia de disciplina física como corretiva, o Estado carece de estratégias preventivas e de apoio efetivo às famílias. Superar essa realidade exige mudança cultural profunda, treinamento prático para pais e um sistema público que antecipe conflitos antes que se transformem em violência.

Bruno Costa
Autor

Bruno Costa