A música clássica no Rio Grande do Norte está prestes a viver um momento histórico. Pela primeira vez em seus 50 anos de existência, a Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte (OSRN) terá uma mulher conduzindo seus músicos. A maestrina Cinthia Alireti assumirá a regência do concerto “Ecos Românticos”, marcado para as 19h30 no Teatro Riachuelo Natal.
O evento, promovido pelo Projeto Movimento Sinfônico da MAPA Realizações Culturais celebra meio século de dedicação da orquestra ao patrimônio cultural potiguar. Para Cinthia, esta oportunidade representa muito mais do que um simples concerto.
Uma conquista histórica para a música potiguar
“É uma grande honra estar aqui como regente dessa orquestra maravilhosa, esse patrimônio cultural do Rio Grande do Norte”, afirma Cinthia. A maestrina reconhece a importância de seu papel como pioneira: “Fico muito feliz que deu certo. E sabendo ainda que eu sou a primeira, que eu estou também fazendo história aqui no Rio Grande do Norte, isso para mim é bem importante”.
Durante os ensaios, o que mais chamou a atenção de Cinthia foi como a música superou qualquer questão de gênero. “O mais importante para mim é que, deste convívio com os músicos, todas essas ideias do que uma mulher pode ou não tenham ido por água abaixo. Que a gente tenha feito música e que tenham ficado, mesmo para eles, os valores que a gente trocou durante esses dias de ensaio”, revela.
Superando barreiras e inspirando futuras gerações
Com quase 14 anos de experiência como diretora artística e regente em São Paulo, Cinthia acredita que sua trajetória deve ser o foco principal. “Eu fico muito honrada que eu sou a primeira mulher, mas eu cheguei aqui com toda a minha experiência de quase 14 anos como diretora artística e regente de uma orquestra lá do estado de São Paulo. Então isso para mim é o que conta, é o que fica”, declara.
A maestrina espera servir de inspiração para outras mulheres que desejam seguir carreira na música. “Espero que eu seja um exemplo para as meninas que querem fazer, que querem ocupar posições que não são aparentemente feitas para elas, mas que são posições que podem ser ocupadas por elas, sim. O mais importante é pensar naquilo que elas sonham em fazer, naquilo que elas são apaixonadas, e não pensar nas barreiras”, afirma.
Cinthia reconhece que a carreira de regente é desafiadora para todos, mas admite que as mulheres enfrentam obstáculos adicionais. “As mulheres encontram porque é muito mais simples aceitar a figura da mulher numa função de apoio do que uma função de liderança”, explica. Ela acredita que a sala de ensaio é um espaço onde essas barreiras podem ser superadas, pois o que importa é a música.
Um programa que atravessa épocas e culturas
O concerto “Ecos Românticos” apresenta um repertório diversificado, conectando diferentes períodos da história da música. O programa inclui obras de César Guerra-PeixeCamille Saint-Saëns e Robert Schumann abrangendo desde a produção brasileira do século XX até o repertório europeu do Romantismo.
Destaque especial para o Concerto para Violoncelo nº 1, em lá menor, Op. 33 de Saint-Saëns, com o violoncelista Ilia Laporev como solista. O maestro titular da OSRN, Linus Lerner explica a escolha do repertório: “O nosso programa cria uma ponte entre diferentes épocas e culturas, mostrando como a expressão, a emoção e a capacidade da música podem nos tocar e continuam ecoando através do tempo”.
Para Cinthia, a OSRN representa um presente para o Brasil e especialmente para o Nordeste. “É um presente para o Brasil, e sobretudo para o Nordeste, ter uma orquestra sinfônica perseverando por 50 anos com um trabalho tão dedicado e uma equipe afinada no palco e nos bastidores”, declara.
Uma jornada musical que começou na infância
A relação de Cinthia com a música começou ainda na infância, com os pais tocando violão e órgão. “Eu tinha uma enorme dificuldade de ler música, ler notação musical. Então eu tocava tudo de ouvido, até muito tempo depois que eu fui aprender a ler música de verdade”, lembra.
Como organista, ela já exercia funções de liderança, organizando outros músicos. Essa experiência a aproximou da regência, que se tornou um caminho natural em sua carreira. “Todo compositor quer poder esculpir o som da maneira que pode, da maneira que tem em mente. Então eu comecei a me interessar um pouco”, conta.
Sua carreira passou por diversas áreas, incluindo canto, regência coral, música antiga e montagem de óperas. A experiência nos Estados Unidos também foi importante, mostrando-lhe como a presença feminina na música pode ser naturalizada.
Ingressos e programação formativa
Os ingressos para o concerto são gratuitos e serão disponibilizados em dois lotes. O primeiro lote estará disponível a partir das 9h de segunda-feira (24), via Sympla, com voucher para troca das 18h às 19h do dia do concerto. O segundo lote poderá ser retirado presencialmente, uma hora antes do concerto, na bilheteria do Teatro Riachuelo.
Além do concerto, o Projeto Movimento Sinfônico promove atividades de formação musical. Na segunda-feira (24), às 17h, Cinthia ministrará a masterclasse “Música, Gestão e Compromisso Social: A Profissão de Regente”. No dia seguinte, terça-feira (25), também às 17h, haverá uma masterclasse de violoncelo com Ilia Laporev. Já no dia do concerto, quarta-feira (26), às 14h30, será realizado um ensaio aberto voltado a estudantes.



