A campanha presidencial de 2026 está oficialmente em andamento, mas muitos olhares já estão voltados para o horizonte de 2030. Nomes como Tarcísio de Freitas (Republicanos), Nikolas Ferreira (PL) e Renan Santos (Missão) estão sendo observados como potenciais candidatos para a próxima disputa pelo Palácio do Planalto.
Essa antecipação estratégica é destacada pelo cientista político Carlos Melo professor do Insper. Em análise recente, ele ressalta que as ações de algumas lideranças da direita devem ser interpretadas não apenas pelo impacto imediato na eleição de 2026, mas também pelo espaço que poderá se abrir em 2030.
O cálculo político para 2030
Melo afirma que 2030 já começou para muitos atores políticos. A racionalidade desses líderes, embora focada em 2026, já está direcionada para o futuro. “O que a gente pode ter são interesses contraditórios em relação ao longo prazo, e muita gente fazendo de conta que está apoiando o candidato A, B, C ou D, mas, na verdade, está torcendo para o candidato perder para que você tenha pista livre daqui a quatro anos”, explica.
Essa lógica é especialmente relevante dentro da direita. Uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL) em 2026 poderia mantê-lo no poder até 2034, caso ele busque e conquiste a reeleição. Por outro lado, uma derrota abriria imediatamente a discussão sobre quem comandará o campo conservador na próxima disputa presidencial.
Tarcísio de Freitas: um nome em evidência
Para Melo, Tarcísio de Freitas é um dos nomes mais evidentes nessa fila sucessória. O governador de São Paulo optou pela reeleição estadual em 2026, depois de ser considerado por setores da direita e do mercado como uma possível alternativa presidencial. “Eu não consigo ver, por exemplo, o governador Tarcísio em 2030 não sendo candidato à Presidência da República”, afirma o cientista político.
Nikolas Ferreira: independência em construção
Nikolas Ferreira também entra nessa conta. A analista política Bárbara Baião da XP chama atenção para o comportamento do deputado nas articulações eleitorais em Minas Gerais. Embora seja uma das figuras de maior projeção do PL no estado, ele não assumiu o protagonismo esperado na organização do palanque de Flávio.
“Me chama muita atenção como Nikolas está um pouco elipsado da liderança dessas articulações, mesmo que mandatado pelo PL para liderar. É outro que, nessa fila sucessória, talvez entenda essa reorganização do campo da direita e a distância que ele deve ou não guardar do bolsonarismo”, observa Bárbara.
Melo também vê movimentos de independência do deputado em relação à família Bolsonaro. “Ele, por algum tempo, tem se rebelado em relação ao domínio dos Bolsonaro, tem feito um esforço muito grande para dar um grito de independência”, afirma. Além disso, Nikolas já sinalizou a possibilidade de mudar de partido após a eleição.
A reorganização da direita
Outro elemento importante nessa reorganização é a ascensão de Renan Santos fundador do MBL que tenta transformar o movimento em um projeto presidencial. Na leitura de Melo, Renan ocupa hoje um espaço diferente daquele controlado pelo bolsonarismo e disputa uma parcela da direita que não reconhece a família Bolsonaro como sua única liderança.
“O que está ficando claro nessa eleição é que o bolsonarismo não é dono de toda a direita. Ele parte de um piso bastante relevante que nenhum outro candidato nesse campo tem, mas, se ele tem o piso alto, pelas contradições todas do campo, ele acaba tendo um teto baixo”, destaca Melo.
O pós-Bolsonaro e o pós-Lula
Para Melo, 2026 pode marcar uma transição mais ampla. De um lado, Lula afirma disputar seu último mandato. Do outro, Jair Bolsonaro continua exercendo influência sobre a direita e foi decisivo para a candidatura do filho, mas novos nomes começam a buscar espaço próprio dentro desse eleitorado.
“Esses atores estão trabalhando para pensar nessa virada de chave que vai ser o pós-Lula e o pós-Jair Bolsonaro. Esta é a última eleição do Lula. Esta é a última eleição com a presidência forte de Jair Bolsonaro. Pode ser o Flávio, pode ser o Eduardo. Então, uma nova leva de nomes, de candidatos já está se colocando a partir de agora”, afirma Melo.
O resultado de outubro, portanto, não definirá apenas quem ocupará o Planalto a partir de 2027. Também determinará quanto espaço haverá para Tarcísio, Nikolas, Renan e outras lideranças disputarem a próxima reorganização da direita — e até que ponto o sobrenome Bolsonaro continuará sendo indispensável para comandar esse campo político.



