Os gabinetes dos ministros Cristiano Zanin e Gilmar Mendes confirmaram que receberam da Polícia Federal a cópia integral do material extraído do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro proprietário do extinto Banco Master. A entrega ocorreu após ofícios enviados à corporação, em meio a uma disputa institucional sobre quem deve ter acesso ao espelhamento do aparelho antes do julgamento no STF agendado para terça (15) de setembro.
O impasse começou quando o relator do caso, ministro André Mendonça manteve sob sua guarda a cópia de segurança em disco rígido criptografado. Mendonça justificou que a divulgação integral poderia prejudicar investigações em curso e afirmou possuir apenas uma cópia lacrada. Em contraponto, Zanin e Gilmar pediram acesso às mensagens completas para formarem convicção no processo, argumentando que não basta confiar em recortes produzidos pela investigação.
Disputa sobre o acesso ao material e posicionamentos no Supremo
No fim de semana, Gilmar Mendes intensificou a cobrança ao presidente do Supremo, Edson Fachin para que todos os ministros tivessem acesso igualitário ao espelhamento do celular de Vorcaro. No ofício, Gilmar sustentou que a retenção exclusiva do arquivo pelo relator compromete a paridade entre os pares e pediu que, se necessário, a própria Polícia Federal envie cópias aos gabinetes. Em resposta, Mendonça reiterou a preocupação com possíveis prejuízos às investigações e negou que houvesse desigualdade no tratamento das informações.
O ministro Alexandre de Moraes também envolveu-se na controvérsia: ele demandou que o espelhamento fosse encaminhado a todos os ministros, sustentando que “não cabe ao relator escolher quais os documentos acessíveis ao colegiado para realizar seu julgamento“. Em contrapartida, Mendonça afirmou que o acesso integral não seria necessário para o julgamento, pois já dispõe “exatamente do mesmo conjunto de elementos de informação franqueado aos demais pares” que participarão da sessão.
O conteúdo das mensagens e o que o plenário decidirá
O julgamento marcado para terça (15) de setembro tem como foco um relatório da Polícia Federal elaborado a partir do aparelho de Vorcaro. Segundo o documento, o ex-banqueiro teria enviado 52 mensagens ao ministro Alexandre de Moraes entre 2023 e 17 de novembro de 2025 data em que Vorcaro foi preso preventivamente. Entre as trocas registradas, consta o envio de um contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes esposa do ministro Moraes.
A investigação indica ainda que Vorcaro buscou informações sobre uma operação iminente para prendê-lo; contudo, a Polícia Federal informou que as respostas do interlocutor não puderam ser recuperadas. O plenário deverá avaliar se abre ou não uma investigação formal sobre a ligação entre Vorcaro e Moraes.
PGR e pedidos de nulidade
Além da discussão sobre os dados do celular, a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu a nulidade do relatório da PF. A PGR sustenta que a produção do documento foi irregular por conta de procedimentos adotados pelo relator e pela ausência de comunicação à presidência do Supremo ou de autorização do plenário para o avanço das investigações contra um colega. Esse pedido de anulação será uma das questões preliminares a serem analisadas pelos ministros.
Ao tornar pública parte do material, o relator do caso Master requisitou que o plenário decidisse se procedia a abertura de investigação contra o ministro Moraes. Em resposta, Moraes divulgou o que classificou como um relatório de inteligência da PF que, segundo ele, teria indícios de direcionamento nas apurações conduzidas pela operação Compliance Zero com a hipótese de atingir adversários políticos. O documento citado por Moraes não é assinado, não traz timbre institucional e traz alerta na capa de que foi produzido como conjectura e “sem valor probatório“.
A ação contra Mendonça e calendário
Moraes também pediu ao presidente Fachin a abertura de investigação contra Mendonça por suspeitas de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. O presidente do STF marcou o julgamento desse pedido para 23 de setembro. Em paralelo, permanece dúvida sobre o rito que será adotado em plenário e se os ministros diretamente citados na matéria comparecerão à sessão.
Nos bastidores, a entrega da íntegra do material aos gabinetes na sequência dos ofícios e do pedido público de Gilmar tende a influenciar o debate no plenário de terça (15) de setembro quando estará em jogo tanto a validade do relatório da PF quanto o eventual desdobramento em investigação contra um ministro do Supremo.



