Um levantamento recente realizado pela Art Basel em parceria com o UBS trouxe luz sobre o comportamento dos colecionadores de alta renda. Entre os 3,1 mil respondentes de dez mercados – Brasil, Estados Unidos, China continental, França, Japão, Reino Unido, Hong Kong, Singapura, Austrália e Alemanha – a geração Z destacou-se como a maior gastadora, com média de US$ 347.460 em obras de arte em 2025, um salto de 19% em relação ao ano anterior.
Perfis de investimento: números que surpreendem
Comparado ao gasto médio de US$ 124.265 registrado pela amostra total, o consumo da geração nascida entre 1997 e supera em mais de duas vezes qualquer outra faixa etária. Esse volume coloca os jovens colecionadores na ponta do ranking de despesas, chegando a ser quase três vezes a média geral. A disparidade também se reflete nas aquisições de grande valor: apenas 1% dos participantes comprou obras acima de US$ 1 milhão entre 2025 e o primeiro semestre de 2026, mas quase metade desses compradores pertence à Geração Z. No mesmo período, 13% dos jovens já ultrapassaram a marca de US$ 1 milhão em compras, enquanto a taxa global foi de 3%.
O papel da família e a escolha dos suportes
Para 40% dos entrevistados da geração, a família foi a porta de entrada para o colecionismo, seja por conviver com um acervo já existente ou pelo incentivo direto de pais e avós. Entre os que herdaram peças, quase 90% decidiram mantê-las, evidenciando a força do legado familiar. No que tange aos tipos de obras, a pintura continua liderando, representando 43% das primeiras compras, seguida da escultura com 25%. Mesmo com o crescimento da arte digital, os suportes tradicionais ainda são o ponto de partida preferido.
Privacidade, tecnologia e novas práticas de curadoria
Um aspecto marcante é a postura reservada da Geração Z. Cerca de 39% restringe o acesso presencial às obras a familiares e amigos próximos, quase o dobro da taxa observada nas demais faixas etárias. No ambiente virtual, 36% mantêm seus acervos em círculos privados e 42% só exibem em grupos fechados ou mediante convite. A raridade se destaca como o atributo mais valorizado: 48% dos jovens citam a exclusividade como fator decisivo, acima dos 38% dos baby boomers.
Em termos de pesquisa, 80% dos colecionadores Z realizam buscas independentes antes de fechar uma compra, superando a média geral de 72%. Ferramentas de inteligência artificial e aplicativos foram citados por 22% dos jovens – um salto de 4% em relação a 2024 – e redes sociais como Instagram ou X influenciam 32% das decisões, especialmente entre mulheres. Além disso, 56% já adquiriram obras de artistas emergentes, comparado a 36% dos colecionadores mais velhos.
O engajamento presencial ainda tem peso: em 2025, esses colecionadores participaram, em média, de 51 eventos de arte – feiras, leilões e exposições – ficando atrás apenas dos baby boomers, que registraram 56 eventos. No campo filantrópico, 29% consideram fundar uma instituição ou museu privado, demonstrando ambição institucional precoce.
Conforme aponta a economista-chefe do UBS Global Wealth Management, Paul Donovan, a preferência por pintura e escultura indica que o gosto estético varia menos entre gerações do que se pensa, sendo a forma de colecionar que realmente evolui. A pesquisa ainda reforça a ideia de que a chamada “Grande Transferência de Riqueza” já está em curso, com valores substanciais sendo movimentados pelas mãos mais jovens.
Clare McAndrew, fundadora da Arts Economics, sintetiza a essência do estudo ao afirmar: “Esta pesquisa nos permitiu olhar além do que os colecionadores de alta renda compram”. Ela destaca que, para a nova geração, o prestígio de uma coleção está mais ligado à raridade, procedência e originalidade do que ao preço pago, reforçando a mudança de paradigma que moldará o futuro do mercado de arte.



