No cenário atual do mercado de trabalho brasileiro, encontrar profissionais qualificados tem se tornado um desafio significativo para as empresas. Com uma taxa de desemprego de apenas 2,8% entre profissionais acima de 25 anos e com ensino superior completo, a concorrência por talentos é intensa. Segundo um levantamento da Robert Half, 81% dos recrutadores afirmam enfrentar dificuldades para contratar profissionais com as competências necessárias.
Esse cenário reflete uma realidade paradoxal: enquanto as empresas buscam desesperadamente por talentos, muitos profissionais desempregados demonstram pouca confiança no cenário atual. O Índice de Confiança Robert Half (ICRH) revela que a percepção sobre o momento atual marcou 36,4 pontos, enquanto as expectativas para os próximos seis meses chegaram a 42,9 pontos. Apesar de ambos os índices estarem abaixo dos 50 pontos, linha que separa pessimismo de confiança, houve uma melhora em relação ao mesmo período do ano passado.
O que está faltando nos candidatos?
A dificuldade não está apenas em encontrar profissionais disponíveis. As empresas também estão mais seletivas sobre o conjunto de habilidades esperado de um candidato. Além do conhecimento técnico, capacidade de adaptação e potencial de desenvolvimento passaram a ganhar espaço nos processos seletivos.
“O desafio não está apenas em encontrar profissionais disponíveis, mas em encontrar profissionais com a combinação de competências que cada posição exige”, afirma Leonardo Berto, gerente da Robert Half. Diante dessa escassez, algumas empresas estão mudando a estratégia. Outro levantamento da Robert Half, realizado com 500 gestores de contratação, mostra que 36% priorizam candidatos com alto potencial para depois desenvolvê-los internamente, em vez de esperar por alguém que já chegue com todas as competências exigidas.
“Muitas organizações passaram a investir em profissionais com potencial de desenvolvimento e aprendizado, mesmo quando não atendem integralmente aos requisitos da vaga”, explica Berto. Esse movimento já aparece nas decisões das companhias, que estão cada vez mais dispostas a investir no desenvolvimento de seus colaboradores.
Quais profissionais estão mais difíceis de encontrar?
A escassez de talentos não está concentrada em uma única profissão. Ela acompanha algumas das principais transformações em curso dentro das empresas. Em tecnologia, por exemplo, a digitalização, o avanço do uso de dados e a inteligência artificial aumentaram a demanda não apenas pelas novas especialidades, mas também por profissionais de infraestrutura, redes e segurança da informação.
“Em tecnologia, por exemplo, a corrida pela digitalização, pelo uso inteligente de dados e pela inteligência artificial gerou uma pressão imediata sobre as bases operacionais, exigindo o fortalecimento de infraestrutura tradicional, redes e segurança da informação”, afirma Berto. A pressão também aparece nas áreas de finanças, contabilidade e fiscal, que precisam lidar com mudanças regulatórias, como os desdobramentos da Reforma Tributária e novas normas de reporte.
Recursos humanos também ganha protagonismo, principalmente nas frentes de atração, retenção e treinamento. “A gestão de pessoas ganha protagonismo com foco em atração, retenção e programas de capacitação interna dos times, justamente para suprir a falta de profissionais prontos no mercado”, diz o executivo.
Recrutadores estão cautelosos, mas esperam melhora
Entre os profissionais responsáveis pelas contratações, o índice ficou em 36,8 pontos para o cenário atual e 44,1 pontos para os próximos seis meses, a maior expectativa futura entre os três grupos analisados. A diferença mostra empresas cautelosas no presente, mas mais otimistas em relação ao que pode acontecer nos próximos meses.
Juros elevados, atividade econômica e incertezas eleitorais continuam entrando nas contas das lideranças. Segundo Berto, porém, esses fatores já estão amplamente incorporados ao planejamento das organizações. “A combinação entre o custo de capital elevado e o mercado de trabalho operando nas mínimas históricas de desocupação faz com que as empresas adotem uma postura de maior cautela financeira e seletividade, focando as decisões de contratação nas necessidades operacionais mais imediatas”, afirma.
Apesar da cautela, há projetos esperando condições melhores para sair do papel, segundo o executivo. “Há projetos e possíveis contratações em espera, que podem avançar se a economia apresentar condições mais favoráveis nos próximos meses”, diz Berto. Os dados também não apontam para uma forte onda de cortes: 58% dos recrutadores indicam baixa intenção de realizar demissões atualmente, enquanto 17% esperam que essa intenção seja ainda menor nos próximos meses.
Se faltam profissionais, por que os desempregados não conseguem emprego? É aqui que aparece uma das maiores contradições do levantamento. Entre os desempregados, a confiança sobre a situação atual é de apenas 31,4 pontos, o menor resultado dos três grupos. Para os próximos seis meses, o indicador sobe para 42,1 pontos.
Mesmo assim, apenas 24% dizem estar confiantes de que conseguirão uma recolocação nos próximos seis meses. “Empresas e candidatos olham para o mercado por perspectivas diferentes”, afirma Berto. “As empresas têm adotado maior cautela e priorizado posições críticas. Para quem busca recolocação, isso se traduz em um mercado mais seletivo e competitivo.”
Ou seja, a existência de vagas e a falta de determinados talentos não significam necessariamente facilidade para conseguir emprego. O desafio está no encaixe entre as competências procuradas pelas empresas e aquelas disponíveis entre os profissionais em busca de recolocação.
A dificuldade para conseguir uma posição permanente também está aumentando a abertura dos profissionais para outras formas de contratação. Segundo a pesquisa, 98% dos desempregados afirmam que aceitariam propostas para projetos especializados com prazo determinado. Para Berto, há uma combinação de necessidade e mudança de percepção sobre esse modelo. “Profissionais desempregados tendem a ampliar suas opções e considerar oportunidades em diferentes modelos de contratação”, afirma Berto.
Além disso, existe uma compreensão crescente de que projetos especializados podem ser uma forma de manter a empregabilidade e acumular experiência. A escassez de talentos não atinge todas as áreas da mesma maneira. Segundo Berto, algumas das maiores pressões estão relacionadas às transformações tecnológicas e regulatórias que as empresas precisam colocar em prática.
Tecnologia é uma delas. A adoção de inteligência artificial, a digitalização das operações e o uso crescente de dados aumentam a procura não apenas por especialistas nessas novas tecnologias, mas também por profissionais responsáveis pela infraestrutura que permite seu funcionamento. “Em tecnologia, por exemplo, a corrida pela digitalização, pelo uso inteligente de dados e pela inteligência artificial gerou uma pressão imediata sobre as bases operacionais, exigindo o fortalecimento de infraestrutura tradicional, redes e segurança da informação”, afirma Berto.
Outra frente de pressão está nas áreas de finanças, contabilidade e fiscal. Nesse caso, um dos principais motores é a Reforma Tributária, que exige das empresas adaptações às novas regras e aumenta a necessidade de profissionais capazes de conduzir essa transição. “No ambiente corporativo, as áreas de finanças, contabilidade e fiscal seguem bastante demandadas para conduzir adaptações regulatórias complexas, como os desdobramentos da Reforma Tributária e novas normas de reporte”, diz.
Apesar de todos os grupos permanecerem na zona de pessimismo, o cenário apresenta melhora em relação a 2026. A percepção sobre a situação atual passou de 35,5 pontos em agosto de 2026 para 36,4 pontos em agosto de 2026. Já a expectativa para os seis meses seguintes avançou de 40,2 para 42,9 pontos. Para Berto, a mudança já pode ser observada dentro das empresas.
“Na prática, as empresas começaram a retomar projetos estratégicos que estavam adiados, como implementação de sistemas, iniciativas de eficiência e produtividade, adoção de inteligência artificial e adequações à Reforma Tributária”, afirma Berto. O retrato, portanto, é de um mercado ainda cauteloso, mas que começa a apresentar sinais de melhora. Para quem procura uma oportunidade, a pesquisa também deixa uma indicação: em um cenário no qual as empresas não encontram todos os conhecimentos que procuram em um único candidato, capacidade de aprendizado, adaptação e desenvolvimento podem pesar cada vez mais na contratação.



