A Casas Bahia uma das maiores redes varejistas do Brasil, está enfrentando uma das maiores crises de sua história. No último domingo (16), a empresa entrou com um pedido de recuperação judicial devido a um passivo de R$ 17,3 bilhões. A decisão vem em meio a uma série de desafios financeiros, incluindo a inadimplência elevada e a queda no consumo de bens duráveis.
A situação se agravou com a postura agressiva de uma gestora de fundos credora, que teria ameaçado a direção da empresa. Como consequência, parte da equipe executiva, incluindo áreas financeiras e jurídicas, passou a contar com escolta de segurança conforme apurado pelo Valor.
FIDCs ligados à Casas Bahia somam R$ 3,95 bilhões
O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia tem implicações significativas para diversos FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) ligados à empresa. Segundo um levantamento da consultoria Uqbar, esses fundos somavam um patrimônio líquido de aproximadamente R$ 3,95 bilhões em julho.
Os FIDCs têm diferentes tipos de exposição à varejista, desde o financiamento do crediário e de fornecedores até a compra de títulos de dívida da própria companhia. O maior desses fundos é o FIDC IBCB-AF01 com um patrimônio de R$ 1,9 bilhão, administrado pela Hemera e gerido pela Intrabank Asset Management. Esse fundo está relacionado principalmente às operações com fornecedores.
Outros fundos, como o FIDC CBSB e o FIDC GCB Fornecedores Comerciais também estão envolvidos. O primeiro tinha um patrimônio de R$ 239,2 milhões, enquanto o segundo, criado para financiar a cadeia de suprimentos da Casas Bahia, somava R$ 790,7 milhões. A administradora Oliveira Trust informou que a Casas Bahia é devedora de direitos creditórios integrantes da carteira desses fundos.
Justiça manda reverter demissões e inicia investigação
Na terça-feira (18), a juíza Katarina Roberta Mousinho de Matos da 11ª Vara do Trabalho de Brasília, concedeu uma liminar determinando a reversão das demissões realizadas pela Casas Bahia nos dias 13 e 14 de agosto. A decisão foi tomada em resposta a uma ação proposta pela Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC).
A liminar tem caráter provisório e foi baseada em uma análise inicial do caso. A juíza ressaltou que a decisão não representa um julgamento definitivo sobre a validade dos desligamentos. No entanto, a empresa foi proibida de promover novas demissões coletivas sem a prévia intervenção das entidades sindicais.
A Casas Bahia terá cinco dias para restabelecer provisoriamente os vínculos empregatícios dos trabalhadores demitidos. Além disso, a empresa deve iniciar um processo formal de negociação com sindicatos e federações representativas dos trabalhadores. A decisão também obriga a varejista a preservar documentos e registros relacionados à reestruturação.
Segundo Marcello Burle, sócio sênior da área trabalhista da Martorelli Advogados, a decisão coloca em discussão os limites da reestruturação empresarial em um cenário de crise e as garantias relacionadas à participação sindical nas demissões coletivas. A liminar foi baseada no Tema 638 do Supremo Tribunal Federal (STF), que estabelece a necessidade de intervenção sindical prévia em dispensas em massa.
Impactos da crise financeira
A crise financeira da Casas Bahia se agravou nos últimos anos, com a empresa enfrentando um período prolongado de juros elevados, aumento da inadimplência e mudanças no comportamento dos consumidores. O processo de reestruturação começou em 2026, com o fechamento de 55 lojas e a demissão de 8,6 mil funcionários.
Em 2026, a situação se tornou ainda mais crítica. A empresa fechou quase 300 lojas e demitiu aproximadamente 3 mil trabalhadores como parte do esforço para reduzir despesas e reorganizar as finanças. Apesar dos cortes, a Casas Bahia afirma que continua sendo economicamente viável, com mais de 20 mil funcionários e mais de 700 lojas em operação no país.
A decisão da Justiça do Trabalho ocorre em um momento delicado para a empresa, que busca renegociar suas dívidas por meio da recuperação judicial. A liminar não encerra a discussão sobre as demissões, e a Casas Bahia terá a oportunidade de apresentar sua defesa e documentos que comprovem eventual negociação prévia com os sindicatos.



