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1 novembro 2026

Mercado argentino: ações baratas e cenário eleitoral de 2027

Ações argentinas ainda baratas, mas o caminho para a valorização depende de política e crédito.

Mercado argentino: ações baratas e cenário eleitoral de 2027

Mesmo com um salto de 47% nos últimos 12 meses o principal índice argentino, o S&P Merval apresenta queda acumulada de 6,64% em 2026. Esse cenário gera dúvidas sobre a atratividade das ações locais. Enquanto o Itaú BBA destaca descontos expressivos e aponta oportunidades nos setores de energia e bancos, o Bradesco BBI mantém recomendação de underweight indicando exposição abaixo da média por falta de gatilhos claros para uma recuperação mais ampla.

Os analistas concordam que as ações argentinas ainda negociam com desconto relevante em relação ao valor justo. O Itaú BBA estima que os preços atuais incorporam prêmios de risco soberano entre 800 e 1.000 pontos-base, mesmo com o risco-país rondando 600 pontos-base. Já o Bradesco BBI aponta que o MSCI Argentina está sendo negociado a apenas 7,8 vezes o lucro projetado – bem abaixo da média histórica de 10,4 vezes – e que o setor financeiro tem múltiplos de cerca de 5,9 vezes o lucro, próximo a 1 vez o valor patrimonial, níveis historicamente atrativos.

Desafios macroeconômicos e o peso da política

A principal fonte de volatilidade, segundo o Itaú BBA, são as incertezas políticas que se intensificam à medida que se aproxima a eleição presidencial de 2027. O banco divide a tese de investimento em três camadas: a “Surf”, que reflete as expectativas eleitorais; a “Maré”, ligada à política econômica; e a “Corrente”, que representa as vantagens estruturais do país, como agricultura, energia e mineração. Indicadores como a confiança no governo e os spreads dos títulos soberanos são vistos como termômetros dessas expectativas.

O Bradesco BBI compartilha a visão de que a política será decisiva, mas adota como cenário-base a reeleição de Javier Milei. Ainda assim, a demora na retomada da atividade doméstica eleva a relevância de candidatos da oposição, sobretudo Axel Kicillof. No âmbito macroeconômico, ambos os relatórios são relativamente otimistas: o Itaú BBA projeta que, em 2027, a Argentina alcance o quarto ano consecutivo de equilíbrio fiscal e reduza a inflação para cerca de 25%, após 30% em 2026 e muito abaixo dos 211% registrados em 2023. O Bradesco BBI concorda, mas ressalta que a estabilização ainda não se traduziu em uma recuperação robusta da demanda interna, do crédito ou da confiança do consumidor.

Setores que podem liderar a revalorização

Apesar das divergências quanto ao timing, os dois bancos convergem ao apontar oportunidades nos setores ligados aos recursos naturais. O Itaú BBA enfatiza as vantagens estruturais da Argentina em agricultura, petróleo e gás, cobre e lítio. Projetos anunciados sob o regime de incentivos ao investimento (RIGI) já somam cerca de US$ 50 bi, com propostas em análise ultrapassando US$ 150 bi, sobretudo nesses segmentos.

O Bradesco BBI também prefere empresas de energia e ativos reais, argumentando que apresentam dinâmica de lucros mais favorável que os setores domésticos tradicionais. Entre as recomendações estão Banco Macro (BMA) e Vista Energy (VIST) que combinam valuations atrativos, balanços sólidos e exposição à normalização gradual da economia. Enquanto o Itaú BBA recomenda foco em companhias de petróleo, gás e infraestrutura energética, o Bradesco BBI mantém a preferência por essas duas empresas como representantes de um potencial de reprecificação mais seguro.

Em síntese, o mercado acionário argentino oferece preços chamativos, sobretudo em comparação com padrões históricos, mas a materialização de uma valorização mais ampla depende de catalisadores ainda ausentes – como a recuperação do crédito e a definição clara do rumo político pós-2027. Investidores de longo prazo são encorajados a olhar além do ciclo eleitoral e avaliar as transformações estruturais em curso.

Beatriz Santos
Autor

Beatriz Santos

Beatriz Santos cobre há oito anos temas de educação financeira para o investidor brasileiro: do Tesouro Direto a previdência privada.