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1 novembro 2026

Produtores chineses de proteína desafiam Brasil e Tailândia

Frango chinês barato ganha espaço no mundo, pressionando consumidores e concorrentes.

Produtores chineses de proteína desafiam Brasil e Tailândia

Nos últimos anos a China transformou seu mercado interno de proteína, reduzindo drasticamente o consumo de carne suína e investindo pesado em produção avícola. O governo, por meio de subsídios que chegam a 13% da receita agrícola, impulsionou fazendas de grande escala a aumentarem a capacidade produtiva, culminando em recordes históricos: 59 milhões de toneladas de carne suína e um crescimento de 7% na produção de aves, mesmo diante de uma população em leve declínio. Esse excedente, combinado com a segurança alimentar como prioridade nacional, criou as bases para que a China passasse de grande consumidora a exportadora líquida de frango.

Crescimento explosivo das exportações de frango chinês

Empresas como a Wintop Food processam cerca de 60 milhões de aves por ano, enviando peito, nuggets, almôndegas e bolinhos para mais de 20 nações. No último exercício, a companhia registrou que metade de seus lucros provinham de vendas externas, o que financiou a expansão de 33 acres de suas instalações. O ponto de venda mais marcante é o preço: o frango chinês chega a custar até US$ 1.000 por tonelada a menos que o brasileiro ou tailandês, condição que força compradores a escolherem a China ou correm o risco de perder competitividade. Segundo dados alfandegários, as exportações de produtos avícolas somaram US$ 2,6 bilhões em 2023, quase o dobro dos níveis de 2020.

Repercussões nos mercados internacionais e respostas regulatórias

O aumento repentino da oferta de proteína avícola de baixo custo tem gerado preocupação entre produtores de países tradicionais. No âmbito europeu, a Comissão Europeia já impôs direitos antidumping de 41% a 67% sobre a proteína de ervilha da China e iniciou, em julho, uma investigação sobre pato laqueado por suspeita de subsídios. Embora o frango ainda não tenha sido alvo de medida semelhante, autoridades da UE afirmam que o mercado está sob vigilância contínua. Na Ásia, a competição se intensifica: empresas tailandesas, que antes dominavam o segmento de frango processado, veem seus preços ser usados como referência pelos compradores globais, como declarou Kukrit Arepagorn, da Associação Tailandesa de Exportadores.

Impacto nos concorrentes sul-americanos

Exportadores de Brasil e Argentina relatam que as coxas e peitos chineses chegam 10% a 20% mais baratos, o que tem levado compradores africanos a migrar das prateleiras latino-americanas para as chinesas. Ezequiel Pires, presidente da Branexx em Lisboa, confirmou que sua empresa começou a adquirir aves da China em março após demandas de clientes africanos por alternativas mais econômicas. Ao mesmo tempo, a UE mantém requisitos rígidos de rastreabilidade e segurança, exigindo que produtos importados atendam aos mesmos padrões que os produzidos localmente, o que pode representar barreira para alguns exportadores chineses.

Transformação do consumo interno chinês

Enquanto a demanda externa dispara, o consumo interno também mudou. O tradicional predomínio da carne suína, que alimentou gerações de trabalhadores urbanos, está em declínio: o consumo per capita de porco caiu 13% desde o pico de 2023, impulsionado por preocupações de saúde e pela preferência crescente por cortes magros. Em contrapartida, o consumo de frango subiu mais de 50% no mesmo período, refletindo uma mudança de hábitos alimentares nas grandes cidades. Produtores como a Yili, maior empresa de laticínios da Ásia, aproveitam a oportunidade para explorar novos mercados, lançando fórmulas infantis no Sudeste Asiático, enquanto a concorrente Feihe já está presente nas Filipinas e Indonésia, competindo diretamente com marcas ocidentais como Nestlé.

Com a China consolidando sua posição como fornecedor de proteína barata e diversificando sua oferta para laticínios, a dinâmica do comércio global de alimentos está sendo redefinida. Para compradores, a promessa de custos menores pode significar acesso a alimentos mais acessíveis; para produtores estabelecidos, representa um desafio de ajuste de preços, melhoria de rastreabilidade e, possivelmente, a necessidade de investir em diferenciação de qualidade para manter sua fatia de mercado.

João Pereira
Autor

João Pereira

João Pereira passou dez anos no buy-side em São Paulo cobrindo ações brasileiras e câmbio. Hoje escreve sobre o mercado para o investidor pessoa física.