A Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte (CineBH) abre sua 20ª edição com um tributo à cineasta paraguaiota Paz Encina. Na terça (22), a capital mineira receberá a diretora para entrega de troféu, masterclass e sessões comentadas de três longas que marcaram sua carreira: Hamaca Paraguaya (2006), Exercícios de Memória (2016) e Carta a um Velho Mestre (2024).
Uma infância guiada pela música
Encina começou a estudar violão clássico aos quatro anos, e descreve a primeira alfabetização como “as primeiras coisas que li e escrevi foram notas musicais”. Essa experiência precoce transformou-se em alicerce estética, pois “a música me deu a métrica e também o senso de ritmo. Mas, acima de tudo, o que ela me deu foi a possibilidade de começar a escrever meus roteiros a partir do som”, afirma a diretora. A influência da música permanece como bússola criativa nas narrativas que exploram perdaausência e espera.
Filmografia marcada por memória e resistência
O primeiro longa-metraje, Hamaca Paraguaya foi premiado na mostra *Um Certo Olhar* do Festival de Cannes e quebrou um hiato de quase 30 anos na produção de longas no Paraguai. Ambientado em 1935, o filme acompanha um casal de fazendeiros que aguarda o retorno do filho partiu para a Guerra do Chaco. Os planos fixos e a distância da câmera criam um ritmo contemplativo que dialoga com o tempo vivido e o tempo sonhado.
Em Exercícios de Memória Encina volta seu olhar para a história política recente ao evocar as lembranças dos filhos de Augustín Goiburú opositor desaparecido em 1976 durante a ditadura de Alfredo Stroessner. “A memória é algo fundamental porque, para mim, é o que mais se aproxima da esperança”, declara a cineasta, ressaltando que construir uma memória coletiva traz “uma pequena sensação de que algo é possível”.
O mais recente, Carta a um Velho Mestre (2024), reafirma o compromisso de Encina com uma linguagem própria, inspirada na obra de Yasujiro Ozu. Ela afirma: “Saber que ele conformou sua própria gramática me fez sentir que eu também poderia criar a minha. E minha gramática não tem nada a ver com essa duração das coisas [do cinema hegemônico]”.
Homenagem e programação da 20ª CineBH
O coordenador curatorial da CineBH, Cleber Eduardo explica que a homenagem “está muito sintonizada com o tipo de cinema latino-americano que a mostra tem privilegiado nos últimos anos”. A coincidência de Hamaca Paraguaya completar 20 anos exatamente na 20ª edição da mostra reforça o simbolismo do evento. Encina acrescenta que “para mim, a liberdade reside em poder exercer sua própria linguagem, sua própria maneira de ver e ouvir. Porque o cinema tem suas limitações, suas próprias ditaduras e sistemas de controle”.
A edição 2026 da CineBH, que vai de terça (22) a 27 de setembro, apresenta 102 filmes distribuídos entre sessões competitivas, temáticas e históricas, tudo de forma gratuita. Em paralelo, ocorre o 17º Brasil CineMundi – Encontro Internacional de Coprodução voltado ao mercado audiovisual. Nesta mesma edição, a escritora Conceição Evaristo estreia como atriz em Se Eu Fosse Vivo… Vivia filme de André Novais Oliveira que venceu o Candango de melhor longa-metraje no Festival de Brasília no sábado (19).



