O terceiro aniversário do ataque de Hamas em 7 de outubro de 2023 voltou a ocupar a pauta política israelense. Na madrugada, militantes palestinos invadiram vários pontos de Tel Aviv e de outras cidades, matando cerca de 1.260 pessoas das quais 850 eram civis e sequestrando 251 reféns. O episódio, considerado o mais letal da história do país, tem sido usado como elemento central nas campanhas eleitorais que se aproximam, a apenas 20 dias da data de votação.
Comparação com conflitos anteriores
Para dimensionar a gravidade, o professor de Relações Internacionais Danny Zahreddine coloca em perspectiva a Guerra do Yom Kippur de 1973, quando aproximadamente 2.600 soldados israelenses perderam a vida, quase que exclusivamente em combate e com pouquíssimas vítimas civis. Já o ataque de 2023, embora tenha durado entre meio dia e um dia inteiro resultou em quase a metade do número total de mortos em três semanas e meia de conflito. Essa comparação reforça a percepção de que o terrorismo de massa atingiu um nível até então incomparável na era moderna de Israel.
Alertas de inteligência ignorados
Investigações apontam que, dez dias antes da invasão, Mohammed bin Zayed Al Nahyan presidente dos Emirados Árabes Unidos, e serviços de inteligência egípcios enviaram mensagens ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu alertando sobre um possível plano do líder de Hamas em Gaza. Segundo relatos de veículos internacionais, Netanyahu recebeu essas informações, mas não tomou medidas preventivas. O próprio Zahreddine afirma que a omissão desses avisos será um ponto decisivo nas urnas, já que ele é responsável por ascenção ou falha na prevenção de ataques.
A disputa eleitoral e as narrativas contraditórias
A oposição israelense, liderada pelo ex-chefe das Forças Armadas Gadi Eisenkot tem tentado construir a mensagem de que o governo de Netanyahu poderia ter evitado a catástrofe. Conforme pesquisa do Instituto de Democracia de Israel (IDI) publicada em setembro, 67 % dos eleitores judeus e 32 % dos eleitores árabes consideram o 7 de outubro um tema determinante na sua decisão de voto. O analista político João Miragaya destaca que a oposição culpa o governo de negligência – desde a falta de uma operação decisiva contra o Hamas até a hesitação em capturar seus líderes, além de citar a reforma judicial de 2023 que gerou insegurança entre reservistas.
O papel do partido Raam
Um dos aspectos que pode mudar o equilíbrio de forças é o apoio marginal do partido árabe Raam. Zahreddine estima que, com a colaboração desse bloco, a oposição tem uma “grande possibilidade” de vencer as eleições. As projeções recentes apontam para 49 assentos destinados à aliança de Netanyahu e 54 ao bloco de Eisenkot indicando que a disputa está bastante apertada.
Críticas à condução da guerra em Gaza
Além das questões eleitorais, a oposição tem questionado a estratégia militar de Israel na Faixa de Gaza. Embora o governo accredite ter “eliminado inimigos” e “evitado a destruição do país”, críticos apontam que a ocupação de metade de Gaza persiste, sem que o Hamas tenha sido definitivamente derrotado. Essa situação, segundo Miragaya, gera um vácuo de segurança que alimenta o discurso opositor de que o conflito se prolongou por dois anos sem alcançar resultados concretos.
Demandas da sociedade civil
O clamor popular por um inquérito independente sobre o 7 de outubro tem crescido. Conforme relatado por especialistas, a maioria da população israelense deseja saber quem falhou na prevenção e quem deve ser responsabilizado. Essa pressão se reflete nas manifestações nas ruas de Tel Aviv, onde grupos de vítimas e familiares de reféns exigem transparência e prestação de contas ao governo.
Em síntese, o aniversário do ataque não é apenas um momento de luto, mas também um ponto de inflexão política. Enquanto Netanyahu tenta sustentar a narrativa de que somente ele pode garantir a segurança nacional, Eisenkot aposta numa campanha que coloca a responsabilidade do governo sob forte escrutínio. O resultado das eleições, ainda incerto, pode redefinir a postura de Israel tanto internamente quanto no cenário geopolítico da região.



