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1 novembro 2026

CUATRO testa cabotegravir e rilpivirina em aplicação semestral no Brasil

Participante trans abre caminho para tratamento injetável de quatro meses contra HIV no Brasil

CUATRO testa cabotegravir e rilpivirina em aplicação semestral no Brasil

O estudo internacional denominado CUATRO entrou em fase 3 para analisar duas formulações ultralonga de antirretrovirais: cabotegravir e rilpivirina. O objetivo central é verificar se a ampliação do intervalo entre as aplicações – de dois para quatro meses – mantém o controle viral com segurança e eficácia. A pesquisa prevê a participação de cerca de 564 voluntários distribuídos em nove países, com acompanhamento estendido até 2029. No Brasil, 65 pacientes já foram incluídos, e mais 5 estão em fase de triagem, conforme explicou o infectologista José Valdez Ramalho Madruga do Centro de Referência e Treinamento (CRT) em DST/Aids de São Paulo.

Detalhes do ensaio CUATRO no Brasil

O recrutamento no CRT foi encerrado após receber mais de 50 manifestações de interesse; entretanto, apenas 11 foram selecionados para iniciar o protocolo. Cada ciclo experimental consiste em duas injeções intramusculares – uma de cabotegravir e outra de rilpivirina – administradas nos glúteos. Além das aplicações, o plano inclui exames laboratoriais, eletrocardiogramas e monitoramento periódico para detectar eventuais efeitos adversos e confirmar a manutenção da supressão viral (carga < 50 cópias por mililitro).

Os participantes já chegam ao estudo com carga viral suprimida, o que indica que o novo esquema não é avaliado como primeira linha, mas como alternativa para quem já controla o vírus com terapia oral diária. O principal desfecho será a proporção de indivíduos que mantiveram a carga indetectável ao longo do período de quatro meses entre doses, comparando esse resultado com o padrão de duas aplicações a cada dois meses já aprovado em outras regiões.

Vozes dos primeiros voluntários

A antropóloga e ativista trans Pisci Bruja tornou-se a primeira pessoa no país a receber a dose experimental de quatro meses. Ela relatou ao g1 que “Tomar uma medicação todos os dias não é uma questão simples, principalmente por causa do estigma em torno do HIV”. Para Pisci, a troca do comprimido diário pela injeção representa um alívio simbólico: “Guardei a caixinha de remédios como recordação, mas senti que algo mudou”. O protocolo também prevê acompanhamento clínico regular, permitindo que a pesquisadora monitore de perto a eficácia da nova formulação.

Outro participante, o enfermeiro Matheus de Azevedo integra o braço comparativo que recebe injeções a cada dois meses. Ele descreveu a experiência como “estranha”, já que está habituado ao uso diário de comprimidos, mas demonstra entusiasmo por fazer parte de uma investigação que pode mudar a rotina de milhares de pacientes.

Implicações sociais e adesão

Segundo o Dr. Madruga, fatores como esquecimento de doses e o medo de expor a sorologia são barreiras recorrentes: “Às vezes a pessoa não quer contar ao parceiro ou à parceira que tem HIV e precisa tomar medicação”. A possibilidade de reduzir as visitas ao serviço de saúde de seis para três vezes por ano pode minimizar esses obstáculos, sobretudo para populações vulneráveis, como pessoas em situação de rua ou privadas de liberdade.

Perspectivas para o SUS e desafios de incorporação

Embora a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já tenha autorizado as versões injetáveis de cabotegravir e rilpivirina, elas ainda não são oferecidas pelo SUS. A incorporação depende de avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) e de decisão do Ministério da Saúde. O órgão justificou a ausência de discussão ao apontar que 96 % das pessoas atendidas pelo SUS apresentam supressão viral com as opções orais disponíveis mas reconheceu que novos formatos podem ampliar a qualidade de vida.

O custo dos medicamentos permanece um obstáculo: nos Estados Unidos, a dose bimestral tem preço de aproximadamente US $ 7 311,28 (cerca de R $ 36 mil), o que eleva o gasto anual para mais de US $ 43 mil (R $ 219 mil). Sem negociações de preço e políticas de acesso, a escala pública ainda parece distante.

Mesmo que o ensaio confirme a segurança das aplicações quadrimestrais, ainda será necessário cumprir todas as exigências regulatórias antes que o tratamento chegue ao SUS. Enquanto isso, a comunidade de pacientes e ativistas continua a pressionar por opções terapêuticas que reduzam o estigma e facilitem a adesão aguardando que os resultados do CUATRO, previstos para 2029 abram caminho para uma nova era no manejo do HIV no Brasil.

João Pereira
Autor

João Pereira

João Pereira passou dez anos no buy-side em São Paulo cobrindo ações brasileiras e câmbio. Hoje escreve sobre o mercado para o investidor pessoa física.