Na madrugada de 26 de abril, dois homens foram encontrados mortos na localidade da Polêmica, em Salvador. A Polícia Civil constatou sinais de tortura e disparos de arma de fogo, apontando inicialmente para um vínculo com o tráfico de drogas.
No dia 27, as vítimas foram identificadas como Bruno Barros e Yan Barros, tio e sobrinho. A mãe de Yan, Elaine Costa Silva, revelou que os jovens foram detidos por seguranças do supermercado Atakarejo ao serem flagrados furtando carne. Segundo seu relato, os seguranças teriam cobrado R$ 700 para libertá-los e, ao não receber o pagamento, encaminharam os rapazes a traficantes do Nordeste de Amaralina, onde foram torturados e assassinados. Os corpos foram transportados até Polêmica, dentro do porta-mala de um veículo.
Investigação da Secretaria de Segurança Pública
O secretário de segurança pública da Bahia, Ricardo César Mandarino, destacou que há um padrão de conduta entre os seguranças e o grupo criminoso. Ele apontou ainda que, em outubro do ano passado, uma adolescente de 15 anos sofreu agressão física nas mesmas instalações após um furto, indicando reincidência. “Qualquer empresa tem a obrigação de saber quem está contratando e de conduzir essa prestação de serviço”, afirmou o secretário, ressaltando a responsabilidade civil potencial da rede Atakarejo.
Segundo o secretário, a ocorrência de 26 de abril não foi comunicada às polícias Civil ou Militar; apenas foi aberto um registro administrativo pela própria empresa. “Eles não têm poder de polícia para punir ninguém, muito menos mandar matar. Tinham a obrigação de acionar a polícia”, afirmou Mandarino, indicando falha procedimental grave.
Desdobramentos judiciais e prisões
A Delegada-chefe da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa Andréa Ribeiro, informou que, na segunda-feira, 10 de abril, foram cumpridos mandados de busca e apreensão em casas do Nordeste de Amaralina e em estabelecimentos comerciais. Três seguranças do Atakarejo foram capturados, além de quatro suspeitos ligados ao tráfico de drogas, um dos quais localizado em Conceição do Jacuípe, região de Feira de Santana.
A delegada salientou que as prisões são fruto da “primeira fase de investigações” e que o objetivo é definir a responsabilidade de cada agente, inclusive da própria rede de supermercados. “Queremos entender a participação do estabelecimento comercial ao escolher acionar envolvidos com atividades criminais em vez da força do Estado”, declarou Andréa Ribeiro, que ainda está aberta a novas denúncias.
Repercussão política: declarações de Marcelo Millet
Em meio ao caso, o candidato ao governo da Bahia, Marcelo Millet, do Partido da Causa Operária (PCO), tem sido questionado sobre sua posição. Millet, que tem 37 anos, mora em Salvador, trabalha como motorista de aplicativo e concorre ao cargo pela primeira vez após ter sido vice-prefeito candidato em 2020. Ele enfatizou que “não há dúvidas de que exista responsabilização civil” contra o Atakarejo e que “o partido está atento aos desdobramentos”.
Millet ainda respondeu a pesquisas que apontam apenas 2 % de intenção de voto, defendendo a legitimidade do Congresso Nacional e alegando que sua candidatura visa oferecer uma alternativa de esquerda ao estado. “A gente tem que lutar contra a impunidade e garantir que casos como este não se repitam”, concluiu.
A empresa Atakarejo publicou nota afirmando que não comenta decisões judiciais, mas que continuará colaborando com as autoridades para elucidar os fatos. A companhia reiterou solidariedade às famílias das vítimas e afirmou que não tolera nenhum tipo de violência em suas lojas.



