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17 setembro 2026

Zaldo Just Neto e a jornada pela condenação do pai que assassinou sua mãe

Zaldo Just Neto, hoje com 40 anos, carrega as marcas de um crime que mudou sua vida para sempre. Descubra como ele e sua irmã transformaram a dor em uma luta por justiça.

Zaldo Just Neto e a jornada pela condenação do pai que assassinou sua mãe

Em abril de 1989, uma noite de outono em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, marcou o início de uma jornada de dor e luta para Zaldo Just Neto. Com apenas 2 anos e 8 meses, ele sobreviveu a um ataque que tirou a vida de sua mãe, Maristela Just, e deixou sequelas permanentes em seu corpo e mente.

O agressor era José Ramos Lopes Neto, pai de Zaldo, que não aceitou o fim do relacionamento com Maristela. O crime, que ocorreu dentro do quarto da casa dos ex-sogros, resultou em um feminicídio e três tentativas de homicídio. Zaldo, hoje com 40 anos, não lembra daquela noite, mas carrega as consequências daquele dia em seu corpo e em sua mente.

A longa espera pela justiça

O assassinato de Maristela Just se tornou um dos casos mais famosos de feminicídio em Pernambuco, um crime que, na época, ainda não era tipificado. A demora da justiça brasileira ficou evidente nesse caso: entre o assassinato e a condenação de José, em 2010, passaram-se 21 anos. A prisão só ocorreu em 2012, e hoje ele cumpre pena em casa.

Zaldo e sua irmã mais velha, Nathália, lideraram a luta da família pela prisão do próprio pai. Ao longo dos anos, mobilizaram protestos, blogs e entrevistas nos jornais locais para manter o caso de Maristela em evidência. Zaldo, formado em direito, escolheu essa profissão com o objetivo de buscar justiça e acerto de contas.

Além das cicatrizes: a dor transformada em luta

Em seu livro Além das Cicatrizes publicado com apoio da Cepe Editora, Zaldo revisita a tragédia familiar e reflete sobre os traumas permanentes em sua vida e naqueles que perderam suas mães de forma violenta. “A sociedade ignora o impacto geracional que esse tipo de crime vai trazer para o país”, afirma ele.

Zaldo destaca que são 37 anos desde o assassinato de sua mãe, tempo suficiente para que duas novas gerações tenham crescido. Ele enfatiza a necessidade de conscientização, pois “todo dia morrem mulheres dessa forma”.

Os números alarmantes da violência contra a mulher

No último dia 7 de agosto, o Brasil celebrou os 20 anos da Lei Maria da Penha um marco no combate à violência doméstica. A lei, batizada em homenagem à cearense Maria da Penha Fernandes, que sobreviveu a duas tentativas de homicídio cometidas por seu marido, tem sido fundamental na proteção das mulheres.

O Ministério da Justiça divulgou que, de janeiro a junho deste ano, o número de medidas protetivas devido à lei foi de 337 mil, o maior da história. Apesar desse avanço, casos como o de Maristela continuam a ocorrer, gerando “órfãos como ele todos os dias”, como afirma Zaldo.

Segundo o Anuário da Segurança Pública, divulgado em julho, os feminicídios no Brasil bateram recorde em 2026. Foram 1.571 crimes ao longo do ano passado, ou quatro mulheres mortas por dia. A alta foi de 4% em relação a 2026, na contramão da queda das mortes violentas

O dia do crime e a espera por justiça

Naquela tarde de 1989, Maristela Just e seu ex-marido, José Ramos Lopes Neto, se encontraram para levar Zaldo a uma consulta médica no Recife. O casal estava separado havia quase dois anos, e Maristela considerava o relacionamento “falido e sem futuro”. Durante esse tempo, segundo a família, José a perseguia e importunava frequentemente.

Na volta para casa, José estacionou o carro na praia de Barra de Jangada, enquanto os filhos dormiam no banco de trás. Ele pedia para reatar o casamento. Durante a parada na praia, a filha mais velha do casal, Nathália, então com 4 anos, acordou e viu o pai segurando a mãe pelos ombros e a chacoalhando. Depois, o viu mostrando uma arma, conforme depoimento à Justiça.

Ao chegar na casa dos pais, Maristela alertou o pai e o irmão, Ulisses, que o ex-marido estava armado, mas a revista feita pela família não encontrou nada. A arma estava na bota de José. Ele então pediu uma reunião familiar no quarto de Maristela, onde a tragédia ocorreu.

Segundo o depoimento de Nathália, o ambiente no quarto minutos antes dos tiros parecia de uma normalidade pacífica. Não havia gritaria ou clima tenso. Maristela estaria de costas para o guarda-roupa terminando de vestir a filha, que dançava em cima da cama usando uma camisola azul-marinho com um patinho amarelo, como relata Zaldo em Além das Cicatrizes.

No chão, ele brincava com um cinto de roupa, enquanto o agressor se abaixava para brincar com ele. Subitamente, José sacou a arma e começou a atirar. Os dois primeiros disparos foram contra a cabeça de Maristela. O irmão dela, Ulisses, arrombou a porta do quarto para impedir o assassino, mas também foi atingido perto da região da coluna.

O agressor então se virou para a filha, atingindo-a com um tiro nas costas enquanto ela descia da cama. Em seguida, atirou na cabeça de Zaldo, que brincava no chão. “Ele não me deu o direito de seguir com minha mãe nem de seguir ileso”, comenta Zaldo.

Diante da cena da tragédia, o pai de Maristela, também chamado Zaldo, entrou no quarto e conseguiu render o assassino. José foi trancado no quarto até a polícia chegar e realizar a prisão em flagrante.

José Ramos Lopes Neto passou cerca de um ano preso, até conseguir um habeas corpus impetrado por seu pai, Gil Teobaldo Azevedo, um famoso advogado no Recife. A partir dali, iniciou-se um grande processo de encontrar brechas para adiar o julgamento.

Em entrevistas dadas à imprensa local, Azevedo chegou a concordar com o crime, alegando que o filho matou a ex-mulher por ter sido ofendido pela vítima ao tentar a reconciliação. “Se não matasse, não comia na minha mesa”, declarou. Também disse que filho não se arrependia do assassinato e criticou declarações públicas feitas pela ativista Maria da Penha.

A tese da defesa era de que os tiros contra as crianças e o tio foram acidentais.

Em seu livro, Zaldo fez um levantamento dos 21 anos do processo na Justiça, até o julgamento em 2010. Ao longo de duas décadas, a defesa ajuizou doze recursos principais, arrastando o caso pelas mais diversas instâncias do Poder Judiciário.

Além de recursos, a defesa solicitou oitivas de diversas testemunhas que residiam fora da comarca original onde o crime ocorreu, um trâmite que protelava o processo. Também houve o registro de cinco renúncias sucessivas de advogados, abrindo-se novos prazos para compor um defensor.

O crime só não prescreveu em 2009 porque o prazo foi interrompido em 2001 pela sentença de pronúncia. O julgamento foi inicialmente marcado para 13 de maio de 2010, mas foi adiado porque nem o réu nem seu advogado de defesa compareceram. Em 1º de junho, a juíza Inês Maria de Albuquerque Alves iniciou o julgamento, ao determinar que defensores públicos assumissem o caso. Como o réu não se apresentou, ele foi julgado à revelia.

Nathália descreveu a dinâmica dos fatos e desmentiu a tese da defesa, relatando que viu o agressor mirar em direção a cada pessoa no quarto. Ao final do júri, José foi condenado a 79 anos de prisão em regime fechado, pelo homicídio e três tentativas.

Segundo Zaldo, aquele foi o dia “mais feliz de sua vida”. José Ramos foi preso no Recife só em 2012, graças a uma denúncia anônima que informou que ele iria fazer uma visita à família, no Espinheiro, bairro nobre da capital pernambucana. Ele teria se escondido no Piauí, Maranhão e até no Paraguai, segundo disse a polícia na época.

Mesmo após a condenação, a defesa utilizou recurso no Supremo Tribunal Federal (STF) em 2014 para tentar anular todo o julgamento, sem sucesso. “Houve a justiça, por mais retardatária que tenha sido”, comenta Zaldo.

A dor transformada em luta

Zaldo lançou o livro Além das Cicatrizes (Editora Cepe) sobre sua trajetória. Adotado por sua tia Marcela, irmã de sua mãe, e seu tio Honório, marido dela, Zaldo lembra que só entendeu o que aconteceu com Maristela por volta dos 10 anos de idade: “Foram colocando os pontos nos is”.

A sua nova família explicou que suas limitações físicas, alvo de bullying na escola, eram decorrentes do tiro na cabeça dado pelo próprio pai. “Até me aceitar, até aceitar a questão de fato, foi doloroso”, lembra.

Zaldo começou a lutar ativamente pela prisão do pai ainda durante a sua adolescência. Aos 17 anos, escolheu seguir o curso de direito com o sonho de colocar o assassino definitivamente atrás das grades.

Em 2010, antes do julgamento, ao perceber que não havia informações sobre o crime na internet, a irmã, Nathália, sugeriu criar um blog focado no tema, para chamar a atenção da imprensa, da opinião pública e pressionar o Judiciário para evitar que o crime prescrevesse.

Quando o caso subiu ao STF e o ministro relator do caso, Dias Toffoli, acolheu a tese da defesa e proferiu o primeiro voto a favor da anulação do júri, a família entrou em desespero. Zaldo escreveu uma carta pública direcionada à população, pedindo apoio, denunciando as manobras da defesa e expondo as marcas físicas e emocionais que carregava. Ele e a irmã viajaram a Brasília para entregar memoriais diretamente nas mãos dos ministros do STF.

Em 10 de fevereiro de 2015, a Primeira Turma do STF decidiu, por maioria de 4 votos a 1, manter a condenação definitiva do condenado. Para Zaldo, escrever o livro foi uma forma de colocar a dor para fora e se curar – além do crime, ele enfrentou problemas de saúde, como um câncer nos testículos.

“Com o livro, eu quis dizer a todos que, independentemente da situação que você esteja passando, você consegue sobreviver. Eu carrego a deficiência, eu carrego a orfandade, eu carrego o peso de um câncer. Mas, além das cicatrizes, fiz do luto uma luta”, conta.

Segundo Zaldo, ele e a família nunca quiseram procurar o assassino condenado nem acompanharam mais o cumprimento da pena. “Somos indiferentes ao seu triste destino que a Justiça tratou de trilhar, afinal qualquer pena é menor que a pena que nos foi imposta: a de viver sem nossa mãe”, escreve.

Casado e pai de uma filha, ele segue atuando junto ao Centro de Referência Maristela Just, criado em homenagem à sua mãe para oferecer um serviço de proteção à mulher em Jaboatão dos Guararapes, cidade da família.

João Pereira
Autor

João Pereira

João Pereira passou dez anos no buy-side em São Paulo cobrindo ações brasileiras e câmbio. Hoje escreve sobre o mercado para o investidor pessoa física.