Em abril de 1989, uma noite de outono em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, marcou o início de uma jornada de dor e luta para Zaldo Just Neto. Com apenas 2 anos e 8 meses, ele sobreviveu a um ataque que tirou a vida de sua mãe, Maristela Just, e deixou sequelas permanentes em seu corpo e mente.
O agressor era José Ramos Lopes Neto, pai de Zaldo, que não aceitou o fim do relacionamento com Maristela. O crime, que ocorreu dentro do quarto da casa dos ex-sogros, resultou em um feminicídio e três tentativas de homicídio. Zaldo, hoje com 40 anos, não lembra daquela noite, mas carrega as consequências daquele dia em seu corpo e em sua mente.
A longa espera pela justiça
O assassinato de Maristela Just se tornou um dos casos mais famosos de feminicídio em Pernambuco, um crime que, na época, ainda não era tipificado. A demora da justiça brasileira ficou evidente nesse caso: entre o assassinato e a condenação de José, em 2010, passaram-se 21 anos. A prisão só ocorreu em 2012, e hoje ele cumpre pena em casa.
Zaldo e sua irmã mais velha, Nathália, lideraram a luta da família pela prisão do próprio pai. Ao longo dos anos, mobilizaram protestos, blogs e entrevistas nos jornais locais para manter o caso de Maristela em evidência. Zaldo, formado em direito, escolheu essa profissão com o objetivo de buscar justiça e acerto de contas.
Além das cicatrizes: a dor transformada em luta
Em seu livro Além das Cicatrizes publicado com apoio da Cepe Editora, Zaldo revisita a tragédia familiar e reflete sobre os traumas permanentes em sua vida e naqueles que perderam suas mães de forma violenta. “A sociedade ignora o impacto geracional que esse tipo de crime vai trazer para o país”, afirma ele.
Zaldo destaca que são 37 anos desde o assassinato de sua mãe, tempo suficiente para que duas novas gerações tenham crescido. Ele enfatiza a necessidade de conscientização, pois “todo dia morrem mulheres dessa forma”.
Os números alarmantes da violência contra a mulher
No último dia 7 de agosto, o Brasil celebrou os 20 anos da Lei Maria da Penha um marco no combate à violência doméstica. A lei, batizada em homenagem à cearense Maria da Penha Fernandes, que sobreviveu a duas tentativas de homicídio cometidas por seu marido, tem sido fundamental na proteção das mulheres.
O Ministério da Justiça divulgou que, de janeiro a junho deste ano, o número de medidas protetivas devido à lei foi de 337 mil, o maior da história. Apesar desse avanço, casos como o de Maristela continuam a ocorrer, gerando “órfãos como ele todos os dias”, como afirma Zaldo.
Segundo o Anuário da Segurança Pública, divulgado em julho, os feminicídios no Brasil bateram recorde em 2026. Foram 1.571 crimes ao longo do ano passado, ou quatro mulheres mortas por dia. A alta foi de 4% em relação a 2026, na contramão da queda das mortes violentas
O dia do crime e a espera por justiça
Naquela tarde de 1989, Maristela Just e seu ex-marido, José Ramos Lopes Neto, se encontraram para levar Zaldo a uma consulta médica no Recife. O casal estava separado havia quase dois anos, e Maristela considerava o relacionamento “falido e sem futuro”. Durante esse tempo, segundo a família, José a perseguia e importunava frequentemente.
Na volta para casa, José estacionou o carro na praia de Barra de Jangada, enquanto os filhos dormiam no banco de trás. Ele pedia para reatar o casamento. Durante a parada na praia, a filha mais velha do casal, Nathália, então com 4 anos, acordou e viu o pai segurando a mãe pelos ombros e a chacoalhando. Depois, o viu mostrando uma arma, conforme depoimento à Justiça.
Ao chegar na casa dos pais, Maristela alertou o pai e o irmão, Ulisses, que o ex-marido estava armado, mas a revista feita pela família não encontrou nada. A arma estava na bota de José. Ele então pediu uma reunião familiar no quarto de Maristela, onde a tragédia ocorreu.
Segundo o depoimento de Nathália, o ambiente no quarto minutos antes dos tiros parecia de uma normalidade pacífica. Não havia gritaria ou clima tenso. Maristela estaria de costas para o guarda-roupa terminando de vestir a filha, que dançava em cima da cama usando uma camisola azul-marinho com um patinho amarelo, como relata Zaldo em Além das Cicatrizes.
No chão, ele brincava com um cinto de roupa, enquanto o agressor se abaixava para brincar com ele. Subitamente, José sacou a arma e começou a atirar. Os dois primeiros disparos foram contra a cabeça de Maristela. O irmão dela, Ulisses, arrombou a porta do quarto para impedir o assassino, mas também foi atingido perto da região da coluna.
O agressor então se virou para a filha, atingindo-a com um tiro nas costas enquanto ela descia da cama. Em seguida, atirou na cabeça de Zaldo, que brincava no chão. “Ele não me deu o direito de seguir com minha mãe nem de seguir ileso”, comenta Zaldo.
Diante da cena da tragédia, o pai de Maristela, também chamado Zaldo, entrou no quarto e conseguiu render o assassino. José foi trancado no quarto até a polícia chegar e realizar a prisão em flagrante.
José Ramos Lopes Neto passou cerca de um ano preso, até conseguir um habeas corpus impetrado por seu pai, Gil Teobaldo Azevedo, um famoso advogado no Recife. A partir dali, iniciou-se um grande processo de encontrar brechas para adiar o julgamento.
Em entrevistas dadas à imprensa local, Azevedo chegou a concordar com o crime, alegando que o filho matou a ex-mulher por ter sido ofendido pela vítima ao tentar a reconciliação. “Se não matasse, não comia na minha mesa”, declarou. Também disse que filho não se arrependia do assassinato e criticou declarações públicas feitas pela ativista Maria da Penha.
A tese da defesa era de que os tiros contra as crianças e o tio foram acidentais.
Em seu livro, Zaldo fez um levantamento dos 21 anos do processo na Justiça, até o julgamento em 2010. Ao longo de duas décadas, a defesa ajuizou doze recursos principais, arrastando o caso pelas mais diversas instâncias do Poder Judiciário.
Além de recursos, a defesa solicitou oitivas de diversas testemunhas que residiam fora da comarca original onde o crime ocorreu, um trâmite que protelava o processo. Também houve o registro de cinco renúncias sucessivas de advogados, abrindo-se novos prazos para compor um defensor.
O crime só não prescreveu em 2009 porque o prazo foi interrompido em 2001 pela sentença de pronúncia. O julgamento foi inicialmente marcado para 13 de maio de 2010, mas foi adiado porque nem o réu nem seu advogado de defesa compareceram. Em 1º de junho, a juíza Inês Maria de Albuquerque Alves iniciou o julgamento, ao determinar que defensores públicos assumissem o caso. Como o réu não se apresentou, ele foi julgado à revelia.
Nathália descreveu a dinâmica dos fatos e desmentiu a tese da defesa, relatando que viu o agressor mirar em direção a cada pessoa no quarto. Ao final do júri, José foi condenado a 79 anos de prisão em regime fechado, pelo homicídio e três tentativas.
Segundo Zaldo, aquele foi o dia “mais feliz de sua vida”. José Ramos foi preso no Recife só em 2012, graças a uma denúncia anônima que informou que ele iria fazer uma visita à família, no Espinheiro, bairro nobre da capital pernambucana. Ele teria se escondido no Piauí, Maranhão e até no Paraguai, segundo disse a polícia na época.
Mesmo após a condenação, a defesa utilizou recurso no Supremo Tribunal Federal (STF) em 2014 para tentar anular todo o julgamento, sem sucesso. “Houve a justiça, por mais retardatária que tenha sido”, comenta Zaldo.
A dor transformada em luta
Zaldo lançou o livro Além das Cicatrizes (Editora Cepe) sobre sua trajetória. Adotado por sua tia Marcela, irmã de sua mãe, e seu tio Honório, marido dela, Zaldo lembra que só entendeu o que aconteceu com Maristela por volta dos 10 anos de idade: “Foram colocando os pontos nos is”.
A sua nova família explicou que suas limitações físicas, alvo de bullying na escola, eram decorrentes do tiro na cabeça dado pelo próprio pai. “Até me aceitar, até aceitar a questão de fato, foi doloroso”, lembra.
Zaldo começou a lutar ativamente pela prisão do pai ainda durante a sua adolescência. Aos 17 anos, escolheu seguir o curso de direito com o sonho de colocar o assassino definitivamente atrás das grades.
Em 2010, antes do julgamento, ao perceber que não havia informações sobre o crime na internet, a irmã, Nathália, sugeriu criar um blog focado no tema, para chamar a atenção da imprensa, da opinião pública e pressionar o Judiciário para evitar que o crime prescrevesse.
Quando o caso subiu ao STF e o ministro relator do caso, Dias Toffoli, acolheu a tese da defesa e proferiu o primeiro voto a favor da anulação do júri, a família entrou em desespero. Zaldo escreveu uma carta pública direcionada à população, pedindo apoio, denunciando as manobras da defesa e expondo as marcas físicas e emocionais que carregava. Ele e a irmã viajaram a Brasília para entregar memoriais diretamente nas mãos dos ministros do STF.
Em 10 de fevereiro de 2015, a Primeira Turma do STF decidiu, por maioria de 4 votos a 1, manter a condenação definitiva do condenado. Para Zaldo, escrever o livro foi uma forma de colocar a dor para fora e se curar – além do crime, ele enfrentou problemas de saúde, como um câncer nos testículos.
“Com o livro, eu quis dizer a todos que, independentemente da situação que você esteja passando, você consegue sobreviver. Eu carrego a deficiência, eu carrego a orfandade, eu carrego o peso de um câncer. Mas, além das cicatrizes, fiz do luto uma luta”, conta.
Segundo Zaldo, ele e a família nunca quiseram procurar o assassino condenado nem acompanharam mais o cumprimento da pena. “Somos indiferentes ao seu triste destino que a Justiça tratou de trilhar, afinal qualquer pena é menor que a pena que nos foi imposta: a de viver sem nossa mãe”, escreve.
Casado e pai de uma filha, ele segue atuando junto ao Centro de Referência Maristela Just, criado em homenagem à sua mãe para oferecer um serviço de proteção à mulher em Jaboatão dos Guararapes, cidade da família.



