Na última semana, Karl Bushby atravessou o Canal da Mancha nadando e pisou novamente em solo britânico após quase 28 anos longe da sua terra natal. O aventureiro, que tem 57 anos, planeja chegar à casa da mãe, em Hull, ainda nesta semana, encerrando uma expedição que começou quando tinha 29 anos.
A semente da aventura
Nos meados da década de 1990, enquanto servia como paraquedista no Exército britânico, Bushby buscava o limite máximo que seu corpo poderia suportar a pé. A ideia decisiva veio de um cartão de aniversário enviado por seu pai, que sugeriu a travessia do Estreito de Bering durante o inverno, quando o gelo cria uma ponte natural entre Alasca e Rússia. O jovem traçou, com marcador preto, no mapa da parede, uma rota que ligava a Inglaterra à Europa, atravessava a Ásia, cruzava o Bering e descia até a ponta sul da América do Sul.
Do sul da Patagônia ao topo do mundo
Em novembro de 1998, ainda com US$ 500 no bolso, Bushby desembarcou em Punta Arenas, no extremo da Patagônia chilena, e iniciou a caminhada rumo ao norte. Carregava um carrinho de golfe adaptado que apelidou de “A Fera”, o qual continha equipamento de acampamento, roupas, alimentos e água. Seu objetivo diário era percorrer cerca de 29 km antes de montar a tenda.
Os primeiros meses foram marcados por clima implacável e por uma alimentação baseada quase que exclusivamente em produtos de postos de gasolina. Sem apoio institucional, Bushby contou com a boa vontade de motoristas que paravam ao longo da estrada para oferecer comida, dinheiro ou apenas um gesto de encorajamento. Ele costuma referir-se ao carrinho como “nós”, comparando-o à bola de vôlei “Wilson” do filme *Náufrago*, reforçando o vínculo emocional que desenvolveu ao longo da jornada.
Para evitar o abatimento mental, o aventureiro intercalava o percurso com pausas que podiam durar semanas ou até meses, permitindo-lhe recuperar o corpo e fugir da “monotonia absurdamente cansativa” da vida na estrada. A primeira década foi, segundo ele, um “sonho de aventura de garoto”, mas com o tempo a rotina tornou-se cada vez mais extenuante.
O gelo do Bering como prova de fogo
Em 2002, ao alcançar o Arizona, na fronteira com Estados Unidos (cidade de Nogales), Bushby viu a percepção pública mudar drasticamente. No clima pós-11 de setembro, foi frequentemente confundido com um sem-teto e sujeito a intervenções policiais que o impediam de caminhar pelas rodovias ou o obrigavam a mudar de local de acampamento. Apesar das dificuldades, conseguiu firmar patrocínios – entre eles uma empresa de hospedagem de sites e uma marca de palmilhas – que lhe garantiram algumas centenas de dólares mensais.
Chegando ao Canadá em 2003, Bushby descobriu, por acidente, que empurrar o carrinho consumia menos energia do que arrastá-lo. A partir desse momento, adotou a técnica de empurrar “A Fera”, reduzindo o desgaste físico.
O ponto mais crítico da trilha ocorreu em março de 2006, quando Bushby e o franco-americano Dimitri Kieffer tentaram atravessar o Estreito de Bering a pé, usando a camada de gelo móvel como passagem. Durante duas semanas, buscaram diariamente o maior bloco de gelo para montar a barraca, ouvindo o rangido constante da massa congelada que, segundo Bushby, “grita”. Em uma noite, o gelo sob a tenda começou a rachar, obrigando-os a fugir para a superfície antes que a estrutura desmoronasse.
Com o clima finalmente colaborativo nos últimos dias, conseguiram chegar ao território russo. Contudo, as autoridades fronteiriças não reconheceram a travessia e os detiveram por quase dois meses, alegando falta de registro. Bushby descreve a experiência como “um choque cultural que mais parecia uma prisão”.
Chegada ao Reino Unido e os próximos passos
A última etapa da jornada trouxe um misto de alívio e angústia. Após nadar o Canal da Mancha, Bushby se reencontrou com o filho Adam, agora com 36 anos, que, na infância, não compreendia a ausência do pai. O reencontro em Alasca em 2004 marcou o ponto de aceitação de Adam, que passou a apoiar a missão.
Sentado em um pub no sul de Londres, vestindo roupas esportivas gastas, Bushby relata que “parece um milagre atrás do outro” e que a aventura, ao longo de três décadas, chegou como um “tsunami” que “realmente dá uma boa surra”. Ele admite sentir “um enorme senso de perda” ao se aproximar do final, temendo “perder o propósito de vida”.
Para o futuro, Bushby menciona a possibilidade de atuar como educador de ciências, levando às escolas a mensagem de que “o mundo é muito melhor do que imaginamos”. Ele destaca que, em toda a travessia, recebeu hospitalidade de desconhecidos em todas as culturas, reforçando a ideia de que a bondade humana pode ser encontrada nos cantos mais remotos do planeta.



