O próximo mandatário do Brasil adentrará um panorama internacional marcado por incertezas profundas. Seja Lula ou Flávio Bolsonaro o futuro chefe de Estado precisará equilibrar interesses divergentes, reconstruir relações estratégicas e enfrentar pressões que vão além das fronteiras nacionais.
Relação com os Estados Unidos sob a administração Trump
A agenda externa brasileira será, inevitavelmente, influenciada pelos midterms norte-americanos previstos para 3 de novembro. Pesquisas apontam para a possibilidade de maioria democrata no Congresso, cenário que pode intensificar o atrito com o presidente Donald Trump até o fim de seu mandato em 2029. Desde sua volta ao poder em janeiro do ano passado Trump elevou as tarifas de importação para 35% e rotulou as principais facções criminosas brasileiras como “terroristas”, abrindo espaço para possíveis intervenções militares.
Além das tarifas, o governo americano tem usado a retórica contra Lula alternando entre elogios e críticas duras, enquanto concede vistos especiais a membros da família Bolsonaro. Em maio Trump recebeu Flávio Bolsonaro em Washington e concedeu visto permanente ao irmão Eduardo, que, por sua vez, anunciou a demissão de diplomatas do Itamaraty caso o senador vença as eleições.
Entre Washington e Pequim: a “armadilha de Tucídides” e o “desafio de Janus”
A disputa entre China e Estados Unidos tem se intensificado em áreas como tecnologia, comércio e controle de recursos estratégicos. Analistas descrevem essa rivalidade como a “armadilha de Tucídides”, referência histórica a conflitos inevitáveis entre uma potência emergente e uma já estabelecida. Para o Brasil, que tem a China como seu maior parceiro comercial, essa dinâmica cria um dilema: como aproveitar a demanda por minerais críticos e terras raras sem ser arrastado para o confronto?
O economista Otaviano Canuto propõe um “desafio de Janus”, onde o Brasil deve desenvolver uma estratégia trilateral que evite ser capturado por nenhum dos lados. Isso implicaria negociar acordos simultâneos, extrair benefícios de ambos e, ao mesmo tempo, preservar autonomia estratégica.
Fragmentação sul-americana e o futuro do Mercosul
Além das tensões globais, a América do Sul enfrenta crescente fragmentação política. Enquanto países como Chile e Bolívia elegeram governos de orientação semelhante ao de Flávio Bolsonaro outras nações, como Argentina e Espanha, preparam eleições que podem reconfigurar alianças regionais (abril-maio de 2027 na França, agosto na Espanha, outubro na Argentina). Esse cenário complica a tarefa de coordenar políticas econômicas e comerciais dentro do Mercosul.
Especialistas citam que, se Lula for reeleito, ele perderá apoio crucial na Europa, como o de Emmanuel Macron que deixará a presidência em maio. Por outro lado, manterá laços com a Rússia, Índia e México. Já um governo Bolsonaro poderia contar com dois anos de alinhamento próximo ao Trump, mas enfrentaria pressão para afastar investimentos chineses e abrir o mercado de minerais ao capital americano, fato que poderia comprometer a credibilidade nos BRICS.
Cada decisão será condicionada ao panorama interno dos EUA, que deverá eleger um novo presidente em 2028 e às transformações políticas na Europa e na América Latina nos próximos anos.



