Em coletiva realizada em Bangcoc no dia 13 de outubro o Fundo Monetário Internacional (FMI) reforçou a necessidade de vigilância constante nos mercados financeiros. O órgão destacou três vetores de risco – inteligência artificialrendimentos de títulos soberanos e ciberataques – que, embora ainda não tenham causado rupturas graves, podem se transformar em choques sistêmicos se forem ignorados.
Correção no mercado de IA e a ameaça da alavancagem
Segundo Athanasios Vamvakidis, diretor-adjunto do Departamento de Mercados Monetários e de Capitais do FMI, “uma correção no mercado de inteligência artificial afetará a economia real”. Ele explicou que o otimismo atual – sustentado por lucros robustos e por expectativas de crescimento impulsionado por IA – não garante segurança. Caso a demanda por soluções de IA diminua, a alavancagem acumulada no setor pode amplificar a queda, provocando vendas forçadas e volatilidade excessiva. Os hiperscalers de nuvem, que hoje representam cerca de 10% das emissões globais de títulos com grau de investimento – frente a menos de 1% em 2024 – são citados como exemplo da rapidez com que o risco pode se propagar.
Pressão dos rendimentos de títulos soberanos
O FMI apontou que, desde o relatório de abril, o aumento dos rendimentos de títulos públicos se intensificou devido ao repasse dos preços da energia. Em economias com níveis historicamente elevados de dívida soberana e déficits fiscais ainda não resolvidos, a capacidade de absorção de novas emissões torna-se um ponto crítico. Vamvakidis observou que “o mercado está preocupado com a enorme quantidade de dívida que os governos, e cada vez mais o setor privado, precisam colocar em circulação, num momento em que os bancos centrais reduzem seus balanços”. Embora fundos de hedge tenham conseguido liquidar parte de suas posições via acordos de recompra sem gerar turbulência, o FMI insiste que a trajetória da dívida pública deve ser tornada sustentável.
Ameaças cibernéticas e vulnerabilidades bancárias
O terceiro pilar de risco mencionado refere-se à crescente sofisticação dos ciberataques. Até agora, 70% dos incidentes de 2026 envolveram fornecedores de software que não tiveram tempo hábil para corrigir vulnerabilidades antes de serem explorados – um salto de 20 pontos percentuais em relação ao ano anterior. A dependência de poucos provedores críticos, principalmente em mercados emergentes com recursos limitados, eleva a exposição global. Vamvakidis alertou que um ataque em larga escala a um serviço essencial ou a uma instituição financeira pode minar a confiança e se propagar rapidamente pelos mercados. Os testes de estresse do FMI revelaram que, embora as reservas de capital dos bancos se mantenham robustas, 22% dos bancos globais já apresentam capital fraco, acima dos 18% registrados em 2025.
Em síntese, o FMI recomenda que autoridades reguladoras monitorem de perto os três catalisadores – IA, juros e cibersegurança – e limitem a alavancagem excessiva, sobretudo em operações de derivativos e empréstimos com margem. A mensagem central é clara: a aparente resiliência dos mercados não é sinônimo de imunidade, e a combinação de pressões pode gerar vulnerabilidades sistêmicas que exigem ação coordenada.



