Ir para o conteúdo
1 novembro 2026

Relatório da Unicef aponta risco maior para crianças com El Niño

Relatório da Unicef revela que o El Niño ameaça a saúde das crianças brasileiras, exigindo ação imediata.

Relatório da Unicef aponta risco maior para crianças com El Niño

A Unicef divulgou, nesta quinta-feira (8/10), um documento que aponta um cenário alarmante para a população infantil diante do atual El Niño. O estudo destaca que, por estarem em fase de desenvolvimento, meninos e meninas são especialmente sensíveis a variações extremas de temperatura, à desidratação e à exposição a agentes patogênicos favorecidos por mudanças nos padrões de chuva. Entre os riscos mais graves estão a ampliação da desnutrição aguda grave o aumento de casos de cóleradengue e malária bem como a interrupção de serviços de saúde e das cadeias de frio das vacinas.

Impactos do El Niño na saúde infantil no Brasil

Nas regiões Sul e Sudeste, a projeção aponta chuvas intensas que podem desencadear inundações, danificar sistemas de saneamento e gerar surtos de arboviroses como a dengue, devido à proliferação do Aedes aegypti. No Norte, a situação se inverte: a seca severa o calor extremo e o risco elevado de incêndios florestais ameaçam a disponibilidade de água potável e pressionam a segurança alimentar, favorecendo a má nutrição. Além disso, o ciclo de produção agrícola pode ser comprometido, levando ao aumento dos preços dos alimentos e aprofundando a insegurança alimentar entre as famílias mais vulneráveis.

Vulnerabilidade de meninas e risco de violações

O relatório destaca que as meninas sofrerão os impactos mais intensos, pois já carregam uma carga maior de trabalho doméstico, como a coleta de água, e são mais propensas ao abandono escolar. Em situações de escassez, elas ficam ainda mais expostas a violência de gênero e ao risco de casamento infantil. Como referência, durante a seca que assolou o Chifre da África entre 2020 e 2023, os casos de casamento infantil aumentaram 119 %. Essa tendência pode se repetir em áreas brasileiras onde a crise hídrica for mais aguda.

“A prioridade do Unicef é agir antes que os impactos do El Niño se agravem”, enfatiza o documento, que propõe medidas como a revisão dos planos de emergência nas escolas, a proteção de fontes de água, o fortalecimento dos sistemas de alerta precoce e a capacitação de profissionais de saúde. Também são recomendados o pré-posicionamento de medicamentos e insumos, a criação de mecanismos de proteção social e o mapeamento de famílias vulneráveis. Danilo Moura, Especialista em Clima e Meio Ambiente do Unicef no Brasil completa: “Esperar a escola fechar, o posto de saúde ficar isolado ou a comunidade perder acesso à água para começar a agir é chegar tarde. Preparar os serviços agora custa menos, permite responder mais rápido e, principalmente, evita que a emergência climática se transforme em uma emergência para as crianças”.

Visão de longo prazo: infraestrutura resiliente

Para além da resposta emergencial, o relatório aponta a necessidade de construir infraestrutura de água, saúde e educação resiliente ao clima. A Unicef estima que cada dólar investido em prevenção e redução de riscos pode gerar até US$ 15 em economia de recuperação. Esse cálculo reforça a importância de políticas públicas que integrem adaptação climática ao planejamento urbano e que garantam o acesso contínuo a serviços essenciais, reduzindo a vulnerabilidade de crianças e adolescentes frente a futuros eventos climáticos extremos.

Vasco Sousa
Autor

Vasco Sousa

Vasco Sousa coordena salas de edição em Lisboa com porte executivo e fato escuro, conhecido por afinar pautas em reuniões rápidas no Miradouro de São Pedro de Alcântara. Exerceu funções editoriais em suplementos locais, licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade de Lisboa e colecionador de cadernos de reportagem antigos.